O que custa mais é querer respirar e não conseguir. Sentir que a minha árvore não cresce ou que a minha espada não corta.
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domingo, 24 de junho de 2012
Infecção
O que custa mais é querer respirar e não conseguir. Sentir que a minha árvore não cresce ou que a minha espada não corta.
quinta-feira, 14 de junho de 2012
New Drug for the Summer
Amoxicillin - Clavulanic acid - Ibuprofen - Cefuroxime - Deflazacort - Acetylcysteine - Diazepam - Desloratadine - Omeprazole - Mexazolam
domingo, 11 de dezembro de 2011
Dai-me paciência!
"Desenhando em Terços", por Márcia X.O tempo adventício é marcado pelos jantares de Natal e outras confraternizações que felizmente só acontecem uma vez por ano. Escolas e empresas fecham para balanço, e as pessoas aproveitam esse tempo para meditarem na porcaria que obviamente, ou não, andaram a fazer nos restantes meses do ano.
O povo faz tudo errado. Esta devia ser uma época de penitência, onde as festas mundanas e as danças deveriam estar arredadas desta quaresma. Mas é precisamente o contrário. Com os corpos embriagados pela cornucópia de carne e álcool, o povo lá vai destilando o seu complexo de inferioridade, sem se ver ao espelho da sua própria incompetência, testando os limites da reptiliana paciência de quem escuta a sua embriaguez pela enésima vez. Não aticem muito a serpente com o cajado, que pode dar mal resultado.
A etimologia da palavra "aturar" vem provavelmente da língua occitana, também chamada de provençal, ou langue d'oc, pelos franceses; o occitano é uma língua falada no sul de França. "Aturar" significa parar ou cessar o movimento, que é aquilo que as pessoas que falam de assuntos mesquinhos, estúpidos, e sem interesse, fazem ao cérebro daquelas que as aturam.
terça-feira, 11 de outubro de 2011
Situar a estratégia do coração ou o coração estrategicamente situado
Michelle Trachtenberg
De vez em quando olho para trás e volto a ler alguns dos meus posts. Alguns dos quais deixam-me satisfeito por ter conseguido ter a habilidade necessária para os escrever, embora outros já façam pouco sentido actualmente, porque se está sempre a evoluir; o pensamento sedimenta, consolida-se, e aquilo que antes se acreditava como certo vai paulatinamente mudando.
Isso nota-se especialmente nas minhas divagações sobre política. Usava com relativa frequência a expressão "tirar o sangue", ao referir-me à acção que o inimigo - o nosso inimigo - nos estava - e continua ainda - a fazer. A retrospectiva torna-se útil neste aspecto: saber onde estava o coração e onde se calcula que ele esteja agora. Claro que ainda penso que nos estão a sangrar, mas desconfio que o mesmo coração esteja já seco, devido ao facto do líquido vermelho há muito o ter abandonado.
A pergunta que se levanta é a da possibilidade de se viver sem coração. Só o conseguem espíritos corrompidos, consumidos pelo desespero e pelo vazio. Não estão vivos no sentido biológico do termo. Servem outro propósito. Os seres humanos continuam a bater, inconscientemente.
Ditaria então a lógica que obliterasse essa parte do Ofídio. A parte onde estou a ser muito mesquinho, rasteiro ou pessoal. Mas a verdadeira natureza deste blogue é criticar e funcionar como uma válvula de escape contra os pulhas com que levo todos os dias: os políticos, os spin-doctors, os jornalistas com agenda, opinion-makers e afins.
Estou-me a cagar para o Steve Jobs. O homem fez login, ou logout, conforme o ponto de vista. Morreu. Siga. Mais logo vou torcer pela Dinamarca, que é a coisa mais patriótica a fazer. Para ver se acordo.
Afinal ainda continua a bater!
Isso nota-se especialmente nas minhas divagações sobre política. Usava com relativa frequência a expressão "tirar o sangue", ao referir-me à acção que o inimigo - o nosso inimigo - nos estava - e continua ainda - a fazer. A retrospectiva torna-se útil neste aspecto: saber onde estava o coração e onde se calcula que ele esteja agora. Claro que ainda penso que nos estão a sangrar, mas desconfio que o mesmo coração esteja já seco, devido ao facto do líquido vermelho há muito o ter abandonado.
A pergunta que se levanta é a da possibilidade de se viver sem coração. Só o conseguem espíritos corrompidos, consumidos pelo desespero e pelo vazio. Não estão vivos no sentido biológico do termo. Servem outro propósito. Os seres humanos continuam a bater, inconscientemente.
Ditaria então a lógica que obliterasse essa parte do Ofídio. A parte onde estou a ser muito mesquinho, rasteiro ou pessoal. Mas a verdadeira natureza deste blogue é criticar e funcionar como uma válvula de escape contra os pulhas com que levo todos os dias: os políticos, os spin-doctors, os jornalistas com agenda, opinion-makers e afins.
Estou-me a cagar para o Steve Jobs. O homem fez login, ou logout, conforme o ponto de vista. Morreu. Siga. Mais logo vou torcer pela Dinamarca, que é a coisa mais patriótica a fazer. Para ver se acordo.
Afinal ainda continua a bater!
sexta-feira, 22 de julho de 2011
Se Portugal tivesse um "motto"
Seria: "quanta entremeada és capaz de comer?"
"O descontentamento nasce nas franjas da sociedade" e viver na periferia é a maior franja da sociedade possível. O Paki é o Bodhisattva, e o gigai é o corpo.
sexta-feira, 10 de junho de 2011
O Protectorado
Hoje comemora-se o Dia de Portugal, embora este dia já não faça sentido. Portugal fazia parte da União, até ser anexado pela ponta de lança da ofensiva americana: As agências de notação financeira e a intervenção externa bandoleira.
A guerra económica mais não é que o sufocamento dos povos sem recorrer aos contingentes militares. Portugal teve a manifesta pouca sorte de ser um dos elos mais fracos do Euro. Como qualquer invasão se inicia pela parte mais fraca, a União Europeia vê-se a braços com uma guerra da qual não quer dar conhecimento ao próprio povo europeu, nos seus simulacros de democracia.
A política europeia, encabeçada pela Alemanha, é uma política de "terra queimada". Uma política que deixa cair os estados mais fracos, para que o inimigo não lucre com eles. A iminência da expulsão do Euro, deixando queimar uma população inteira, é o que se projecta a prazo. Uma doutrina de tratamento de choque, ao bom estilo da escola de Chicago. Um genocídio cultural, com total desprezo pela vida humana.
Portugal, o país. Portugal, a nação. Portugal, a língua que foi vendida aos brasileiros por trinta dinheiros. Portugal, uma terra de usurários e cangalheiros. Daqui para a frente será a agonia até à estocada final. O protectorado não encontra nenhuma razão para não se considerar como tal.
Portugal sempre teve as suas vergonhas. A história apócrifa em que Vasco da Gama escorregou, ao embarcar na São Gabriel. Mesmo que tal nunca tenha sido vertido para o papel. Mesmo que tal verso nunca tenha feito parte da Lusíada.
Hoje quem cantar Portugal só pode cantar sobre vergonha. Vergonha por não sermos. Vergonha por nos perdermos. Vergonha por nem conseguirmos ser capazes de nos revoltar. Se este é o teu sal, então vai conservar muito bem o teu cadáver, Portugal!
quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011
Tempo de Chuva
Este texto não contém Deolinda, nem contém Aníbal, mas contém uma raiva por essa elite trans-geracional. Pelos pedaços que são deixados, como migalhas, pelos Filhos-de-uma-Puta que mandam em Portugal. Por aqueles que dizem que a culpa da falta de perspectivas está no acomodamento de pessoas mimadas. Por aqueles que pouco se interessam por quem recebe facadas. Eu seria menos acomodado, eu seria menos mimado, se esses tais me deixassem cortar-lhes a carne com uma faca romba. Nem mais. Como fazem eles. Sem qualquer tipo de vergonha.
terça-feira, 23 de novembro de 2010
Administração Interna
Meia dúzia. Eles são só meia dúzia. Meia dúzia de indivíduos instalados no topo da sociedade, que desviam os recursos do país através de acordos entre eles. Uma nação delapidada como se de uma coutada privada se tratasse. As mesmas pessoas desde há trinta anos. Já ninguém se lembra dos dois operários assassinados pela Administração Interna, no Porto, em mil novecentos e oitenta e dois. Os assassinos ainda mandam no resto dos portugueses e os actuais líderes partidários são meros títeres dessa gente.Sangram-se os portugueses como gado. Não interessa a justiça social, o serviço público ou o bem-estar dos cidadãos. Os media acalmam as pessoas, para que estas não se revoltem. Para que não causem uma rebelião. Porque os blindados que elas pagaram já cá estão... e prontos para matar... tal como em mil novecentos e oitenta e dois.
A sociedade encontra-se infantilizada devido às ideias básicas de um povo sem educação. A desresponsabilização é geral, mas favorece quem está no topo. Tal como crianças sem responsabilidade ou ideias, o povo é sangrado por esses assassinos sedentos de vida alheia. Não existe nenhuma desculpa. Esses assassinos são algo não humano, porque alguém com um coração recusa esse tipo de práticas, mesmo com o retorno de maços de papel. Dinheiro sujo, que alimenta a ganância de quem nos mata e fica impune.
As próprias massas são controladas quando se manifestam. Cabeças contadas por quem gere esse tipo de protestos. Traídas por dentro. Enganadas por manipulação. Controlo. Identificação de elementos subversivos. Agora eliminados. Mortos, se preciso for.
sábado, 23 de outubro de 2010
Karma imediato
Esta semana foi surreal. Desconheço a razão porque me estou sempre a cruzar com raparigas que gostam de brincar com o fogo. Se é a inerente estupidez da raça feminina a causa deste tipo de atitude imatura, ou se existe alguma pulsão magnética da minha parte, que me atrai para esse tipo de pessoas, é algo que não consigo explicar.A juntar a este problema da coronária, que se resolve com uma atitude racional, foi assistir à consequente desumanização de corações e almas devido à informação e à tecnologia, transformando os indivíduos em armas de destruição maciça, através de uma escolha criteriosa de alvos pessoais.
O ego é determinante naquilo que gostamos ou o que não gostamos. A programação individual ajuda o indivíduo a sobreviver, e numa lógica mais complexa, faz com que uma pessoa tenha um determinado peso na sociedade, segundo os amigos que tem ou que deixa de ter.
O entranhar de uma determinada máfia no tecido artístico e cultural do país tornou a premissa principal na necessidade de pertencer a uma capelinha, onde estão os nossos amigos. Aqueles que nos ajudam, independentemente do nosso talento, uma vez que estas personalidades são egocêntricas e deixaram de ter noção da realidade em que vivemos.
O que nos leva à questão do elitismo. Se a massificação de um produto pode ser quase sempre nefasta para a qualidade do mesmo, a selectividade, ou pior do que isso, a falsa selectividade consegue produzir resultados ainda piores. Por elite entende-se um grupo restrito de indivíduos, dominante no interior de uma sociedade e que detém um estatuto privilegiado, motivo de inveja por quem se situa num patamar inferior.
Mesmo que num momento inicial, o ego jure que não vai modificar o seu comportamento ou a sua postura, a venda da alma ao Diabo e o mel sedutor que este oferece conseguem abalar a postura mais estóica. No fundo, todos queremos aquilo que criticamos, e no fim de contas, todos criticamos aquilo que já fizemos. Criticamos quem canta em inglês, apesar de já o termos feito anteriormente. Criticamos as máfias artísticas, mas vamos lá beijar-lhes o rabo e até sorrimos. Criticamos o estado a que o país chegou, mas é tudo conversa de café, e depois dos nossos quinze minutos de indignação, vamos dormir, que amanhã é outro dia.
Criticamos porque não queremos fazer mais nada e só isso nos resta. Quando finalmente formos chamados à elite, essa grande vaca, cujas tetas alimentam uns poucos privilegiados, ficaremos satisfeitos e encontraremos outra coisa qualquer para criticar suavemente.
Uma laranjeira sofria anualmente com as larvas da mosca da fruta. A partir de uma determinada altura, o dono resolveu não regar os ramos da árvore, como era prática comum, nem usar o aparentemente inútil pesticida. A dita árvore começou estão a apresentar um conjunto elaborado de teias de aranha em quase todos os ramos. As aranhas perceberam que naquele local havia algo para se alimentarem e controlaram a população de moscas, restabelecendo o equilíbrio ecológico, o que veio contribuir para uma safra de laranjas sadias.
As melhores soluções são muitas vezes as mais simples, e quem faz jogos desnecessários por vezes dá-se mal.
domingo, 17 de outubro de 2010
A Serpente do Deserto
Tinha vontade de lhe contar que também estive em Merzouga, embora não tenha andado de camelo, o que equivale mais ou menos a ir a Roma e não ver o Papa, ou que o aspecto mais impressionante de toda aquela paisagem tenha sido o facto de olhar em volta e conseguir ver sempre a linha do horizonte. Das fotografias que tirei voltado para cada um dos pontos cardeais.Dizia-me uma vez um professor que eu tive, apaixonado por fractais, que os desertos são os locais por excelência de construção de religiões. As maiores religiões monoteístas tiveram a origem nas suas areias, o que não deveria ser de estranhar, pois o nosso mundo apresenta muitas distracções para os sentidos e o ambiente árido e inóspito do deserto torna-se ideal. Ideal para uma pessoa estar sozinha com ela própria e encontrar a resposta dentro de si. Aquela resposta que as pessoas no quotidiano não ouvem, porque estão imersas em ruído e cujo pensamento está a ser constantemente atropelado por solicitações de outros seres, também eles em busca de uma resposta, mesmo que não a tentem ou não a queiram encontrar.
Não nos convém aproximar muito dos tufos de vegetação. A maior parte das coisas que mordem estão aí escondidas. Enquanto isso, observava o trilho de pegadas de um fenec - "C'est un petit renard!", e eu - "Oui, je sais ce qu'est un fenec!". O meu raro sorriso de boa disposição era revelador disso mesmo. Da certeza de que o feneco, como se diz nesta língua, nunca ser motivo de conversa em lado nenhum português e da maior parte das pessoas deste país nem sequer saber que tal animal existe. Assim desconhecendo, torna-se mais fácil odiar o nosso mundo e por extensão nós próprios. Assim desconhecendo, torna-se mais fácil deixar que outras pessoas se alimentem de nós e nos transformem em escravos, porque a imensidão do deserto não faz sentido nenhum para essas pessoas que tentam viver enclausuradas em ambientes claustrofóbicos, como casas diminutas, e que saem para se tentarem divertir em bares diminutos e que provavelmente nem conhecem o vizinho do lado, tornando-se assim mais fácil. Mais fácil odiar.
O fenec só sai à noite. Por razões óbvias, é um animal de hábitos nocturnos como a maior parte das criaturas do deserto e isso desconsolou-me um pouco, pois não iria ter oportunidade de o ver. Já estava entre as areias do deserto desde antes do amanhecer, após ter ouvido o adhān em Erfoud ainda deitado, e de, em seguida, percorrer num Defender o caminho até à imensidão.
O nascer do sol é uma experiência quase mística e não me ocorre mais nenhum adjectivo para descreve-la. Acredito que qualquer pessoa reavalie determinadas considerações da sua vida depois de ter experimentado o deserto. Na realidade, o imenso é algo que muda a consciência de uma pessoa mesmo que esta não esteja preparada para isso, e geralmente nunca está.
A serpente detentora do pensamento estava lá comigo. Os cornos da víbora do deserto cortavam Cronos, o tempo, pois o seu serpentear debaixo dos grãos desse oceano de areia era como um deslizar cortante que tocava em todos os seres humanos, grãos desse oceano chamado consciência universal. Ainda hoje guardo os grãos dessa areia.
sábado, 9 de outubro de 2010
Snake
«You snake you crawled between my legs Said want it all it's yours you bet I'll make you queen of everything No need for God no need for him Just take my hand you'll be my bride Just take that fruit put it inside You snake you dog you fake you liar I've burned my hands I'm in the fire Awooooooh....oooooooohhhh Oh you salty dog you filthy liar My heart it aches I'm in the fire You snake I ate a true belief Your rotten fruit inside of me Oh Adam please you must believe That snake put it in front of me In front of me»
PJ Harvey - "Snake", do álbum "Rid of Me" (1993)
Isto não é uma performance, é uma catarse...
domingo, 12 de setembro de 2010
Viagem ao Érebo
Senti-me como que absorto pelos meus pensamentos passados para papel. Precisava de entender o facto do toque ser frio e absoluto como uma caligrafia bem estruturada.O caminho descia por uma escuridão cada vez mais intensa, e nem um deus da morte conseguiria imaginar uma escuridão mais negra do que o preto, mas ali estava ela à minha frente. No entanto conseguia vê-la, a essa escuridão, como se a ira de Beleth me tivesse amaldiçoado durante a sua rebelião frustrada e agora o olho monstruoso, que actua como espião desse demónio, conseguisse por sua vez, também ver o meu fracasso. O fracasso em conter as minhas emoções.
Eu, que deveria tomar decisões perfeitamente racionais, tal como se espera de um ser da minha raça. Mas em vez disso, deixava-me inebriar pelas canções de Megara.
Aproximei-me do fim do caminho. Pequenos cristais reluziam à minha volta, abatendo um pouco a escuridão antes desenhada, até que vi uma figura imponente encimando uma barca funesta, que lentamente se deslocava para a margem.
Essa figura era um velho andrajoso que vociferava, num clamor que enchia o mundo tenebroso onde nos encontrávamos, sobre o facto de eu não ter motivo ou razão para estar ali, diante dele. As sombras dos mortos gemiam em prantos indescritíveis ao nosso lado, embora nenhuma delas se atrevesse a colocar um pé que fosse nas águas corrosivas do Estige.
Eu sabia que o barqueiro era irascível, mas sentia-me determinado em prosseguir o meu caminho. Necessitava de encontrar os três juízes. Talvez Éaco ou Minos me pudessem aconselhar sobre a melhor opção a tomar, ou que dissessem algo que atenuasse a minha miséria. Nem que para isso tivesse de ir a um lugar de onde nenhum ser vivo tivesse estado antes, exceptuando talvez os heróis lendários.
- Só transporto sombras que tenham um óbulo para fazer o pagamento! Dizia-me com gravidade, Caronte. - Para além disso, tu não estás morto... o teu lugar não é aqui!
- Também não estou propriamente vivo! Respondi. - Quanto ao pagamento, penso que só se apropria às sombras.
Lembrei-me que Orfeu tinha tocado uma canção emocionada com a sua lira, para convencer Caronte a transporta-lo, aquando da sua descida aos infernos em busca da sua amada Eurídice. Mas apesar de, tal como Orfeu, eu deter o conhecimento da serpente, aquilo que eu pudesse tocar dificilmente convenceria Caronte. Uma vez que se assemelhava mais ao ribombar de um trovão, do que às linhas melódicas e perfeitamente harmoniosas do filho de Apolo.
Ao inclinar-se na minha direcção e olhando mais de perto para a minha cara, a expressão do mórbido barqueiro alterou-se, revelando surpresa. Acedeu a fazer a travessia e atravessámos as águas negras do rio do ódio sem este ter proferido qualquer palavra.
Ao chegarmos ao Mundo Inferior propriamente dito, agradeci ao barqueiro, que já se encaminhava para a outra margem e voltei-me para subir uma leve elevação que dava para uns portões lúgubres e estudar a melhor maneira de encarar o demónio Cérbero.
Este demónio do poço podia ser aterrorizante e bastante feroz. No entanto, recebeu-me como um cão que recebe o dono, e foi então, que finalmente percebi a razão da surpresa de Caronte.
domingo, 21 de março de 2010
Disposição equinocial
Tudo e Nadae "quente como o sangue..."
A Primavera tem destes lados melancólicos também...
sexta-feira, 8 de janeiro de 2010
Dormência
A serpente encontrava-se dormente. A perda do Amor, da Amizade e de todos aqueles sentimentos que nos fazem sentir, deram origem a esse luto. O tempo invernoso e o frio das intempéries propiciavam e encorajavam esse estado de espírito.
Enroscou-se em si própria e retirou-se voluntariamente da sociedade.
Com o passar dos dias, esgueirou-se lentamente para o exterior, onde o brilho do Sol lhe queimava os olhos.
A época não ajudava. Mesmo que a inerente mensagem de Paz e Boa Vontade fosse aviltada pelo acotovelar desesperado de humanos, empenhados em cumprir uma tradição.
Perdeu toda a esperança, bem como a alegria em efectuar fosse o que fosse. Mesmo que a celebração de um novo ano fosse a congratulação do facto de estar vivo, esse era um fraco argumento.
Enroscou-se em si própria e retirou-se voluntariamente da sociedade.
Com o passar dos dias, esgueirou-se lentamente para o exterior, onde o brilho do Sol lhe queimava os olhos.
A época não ajudava. Mesmo que a inerente mensagem de Paz e Boa Vontade fosse aviltada pelo acotovelar desesperado de humanos, empenhados em cumprir uma tradição.
Perdeu toda a esperança, bem como a alegria em efectuar fosse o que fosse. Mesmo que a celebração de um novo ano fosse a congratulação do facto de estar vivo, esse era um fraco argumento.
sexta-feira, 11 de dezembro de 2009
quarta-feira, 9 de dezembro de 2009
Aviltar uma amizade
Dificuldade é adormecer em lágrimas, dificuldade é suspirar até à exaustão e parecer que o corpo se esvai em dor. As semelhanças são como um luto, só que por uma pessoa viva. As mulheres são manipuladoras e por natureza jogam com o interesse masculino, devido talvez à necessidade de conforto ou de se sentirem amadas.
Os sentimentos dos homens são muito mais puros e genuínos, apesar de serem mais lineares. Ainda hoje desconheço a razão da nossa discussão. E o facto de ter crescido até uma escalada sem sentido, com uma variedade de insultos da parte dela, só porque discordava da minha opinião. Isso deveria ser um tema menor e facilmente resolúvel. Pelos vistos não havia respeito.
Poderia haver cansaço? Nesse caso, bastava uma atitude adulta de ambas as partes para não se chegar a esta situação.
Reconheço a minha dependência emocional e a capacidade que tenho de enervar o próximo. Sufoca-lo nas suas próprias angústias enquanto este se debate por uma saída.
Tento que poucas coisas me magoem, devido a um muro erigido que faz com que pareça que sou insensível. A raivinha dela por achar que eu estaria a desfrutar do sofrimento dos outros é algo que mostra que não me vê como eu sou na realidade. Não lhe posso censurar isso. Ninguém fica contente depois de levar uma chapada emocional.
Será que devia controlar a minha capacidade de vingança. Isso seria só uma negação daquilo que me faz humano. Até ela é capaz de reconhecer que a vingança foi merecida, embora talvez desproporcional.
Quanto ao que me faz humano, os sentimentos que ninguém deve saber que tenho. Talvez não tenha eu a envergadura para ser um demónio, talvez esteja a hesitar. Tal como o nazareno hesitou no jardim das oliveiras, sem a certeza se teria a envergadura para se tornar um Cristo. Ambos traídos por um beijo na face, a suprema ironia que me tornou um monstro.
A falta de amizade.
domingo, 6 de dezembro de 2009
Dói-me o coração
A dor e o sofrimento é tudo o que fica depois de se fazer uma maldade. Percebi que afinal também tenho sentimentos, e que afinal, ser rebaixado, insultado, desprezado, humilhado e ridicularizado tem as suas consequências. Mas aquilo que sinto provavelmente não tem importância. Pois que interessa isso ao pé da tua miséria. Talvez a tua atitude tenha sido a mais correcta, apesar de causar a infelicidade de todos. Abrires a porta à minha paixão destrutiva foi uma jogada de mestre. É fácil desconsiderar alguém, sem pensar que por trás se encontra uma pessoa real e com sentimentos e cujo o ódio, vingança e ressentimento vão aflorar quando se encontra num beco sem saída.Lembro-me com carinho da altura em que te conheci e do enriquecimento que deste à minha vida. A tua alegria e jovialidade e todas as virtudes que me fizeram querer ficar junto de ti, sentir a tua pele macia e beijar-te a face.
Agora só me restam a solidão e o abandono. Espero que isso seja suficiente para mitigar a tua dor e perceberes quem ganhou.
Sinto-me frágil. A ausência de alimento e de sono é agora uma realidade, mas a dor que causam é pálida ao pé da dor da tua ausência, devido o acto patético e imbecil de te dar o coração e de não o quereres aceitar.
Amo-te e espero que me perdoes quando tu fores uma pessoa diferente e melhor e eu também. Agora só me resta chorar até esse dia.
sábado, 5 de dezembro de 2009
domingo, 22 de novembro de 2009
Já ia o Outono (muito) adiantado
Portugal embarcou à trinta anos atrás num sonho utópico de uma sociedade mais justa, fraternal, igualitária e harmoniosa. Sonho esse, que não se encontra cumprido, na opinião dos seus defensores. Nunca lhes ocorreu pensar que a mesquinhez que forma a base do povo português nunca iria deixar concretizar isso.
A nobreza é um atributo que é apanágio de anjos e demónios. Os seres humanos são por natureza vis e corruptos, e de entre esses, o povo dos portugueses está entre um dos mais corruptos deles todos. Tudo cheira a corrupção! As almas, os sentimentos, as atitudes.
Todo o desenrolar de acontecimentos no nosso território. Aquilo que alguns, num certo eufemismo chamam de História, desde a Fundação, passando pela Expansão Marítima e pela Restauração, é uma sucessão de traições, vilipêndios, facadas nas costas e buscas de ganhos pessoais.
Ainda por cima estas acções são glorificadas e ensinadas nas escolas como actos cobertos de glória numa lavagem cerebral ao longo de gerações.
A nobreza é um atributo que é apanágio de anjos e demónios. Os seres humanos são por natureza vis e corruptos, e de entre esses, o povo dos portugueses está entre um dos mais corruptos deles todos. Tudo cheira a corrupção! As almas, os sentimentos, as atitudes.
Todo o desenrolar de acontecimentos no nosso território. Aquilo que alguns, num certo eufemismo chamam de História, desde a Fundação, passando pela Expansão Marítima e pela Restauração, é uma sucessão de traições, vilipêndios, facadas nas costas e buscas de ganhos pessoais.
Ainda por cima estas acções são glorificadas e ensinadas nas escolas como actos cobertos de glória numa lavagem cerebral ao longo de gerações.
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