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sexta-feira, 23 de março de 2012

Dança

Mai Nadasaka, AV Idol

Mai é um nome próprio japonês. O ideograma para Mai (舞, "dança") é composto por uma parte superior (無, nai) que representa uma pessoa com os braços esticados (大) a segurar duas peles de animal em cada lado (革 + 大 + 革) significando uma afirmação negativa, ou a falta de algo. Na parte inferior de 舞 consegue-se ver claramente outro ideograma (舛, "passos") representando passos de dança.
O ideograma para dança pode ser lido tradicionalmente como "bu" (ぶ, bu). Como na componente de 歌舞伎 (kabuki, かぶき), uma forma de teatro japonesa, literalmente ka (歌, "canção"), bu (舞, "dança") e ki (伎, "arte").

domingo, 5 de fevereiro de 2012

O Titi fez-me um bóbó

O animal mais conhecido por Leontopitecus rosalia chama-se Titi-leão em português. "Mico-leão" é brasileiro. Mas talvez fosse esperar muito que num jornal televisivo português, se falasse português. Pelos vistos não é só a ortografia, também querem que mudemos os vocábulos, o léxico e o resto. O autor da pérola foi João Pacheco Miranda, "jornalista" da RTP, que para além de ser um conhecido sabujo do poder, também é um promotor da ignorância entre as massas, e desse desígnio cultural de abrasileirar a sociedade portuguesa.
O coiso da Cultura, de seu nome Francisco José Viegas, tem razão quando afirma que "a língua é de quem a fala". O problema do brasileiro é que é um dialecto, não é uma língua. Não é uma questão de ortografia, ou até de sotaque, é uma diferença de estrutura frásica e de vocabulário. Enquanto se insistir no engodo de que o português e o brasileiro são a mesma língua, iremos ter sempre este tipo de discussão. A única razão porque o brasileiro se impôs ao português, na tentativa de uniformização ortográfica, é porque o Brasil tem mais população e mais poder económico. Deixem o Brasil registar a sua língua na ONU como brasileiro, uma vez que já é uma nação independente, e acabem com o mito de que o português é uma das línguas mais faladas no mundo. O governante Viegas, como representante do lobby livreiro, tem todo o benefício em defender o acordo, para que as suas editoras melhor possam vender num mercado mais alargado, com menor custo, uma vez que, tal como o resto do governo, ele só vê o lucro e o ganho pessoal à frente. Mas o português é assim mesmo, meio macaco e meio leão.

domingo, 11 de dezembro de 2011

Dai-me paciência!

"Desenhando em Terços", por Márcia X.

O tempo adventício é marcado pelos jantares de Natal e outras confraternizações que felizmente só acontecem uma vez por ano. Escolas e empresas fecham para balanço, e as pessoas aproveitam esse tempo para meditarem na porcaria que obviamente, ou não, andaram a fazer nos restantes meses do ano.
O povo faz tudo errado. Esta devia ser uma época de penitência, onde as festas mundanas e as danças deveriam estar arredadas desta quaresma. Mas é precisamente o contrário. Com os corpos embriagados pela cornucópia de carne e álcool, o povo lá vai destilando o seu complexo de inferioridade, sem se ver ao espelho da sua própria incompetência, testando os limites da reptiliana paciência de quem escuta a sua embriaguez pela enésima vez. Não aticem muito a serpente com o cajado, que pode dar mal resultado.

A etimologia da palavra "aturar" vem provavelmente da língua occitana, também chamada de provençal, ou langue d'oc, pelos franceses; o occitano é uma língua falada no sul de França. "Aturar" significa parar ou cessar o movimento, que é aquilo que as pessoas que falam de assuntos mesquinhos, estúpidos, e sem interesse, fazem ao cérebro daquelas que as aturam.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Lírios de fim de Verão

Liliana Santos

Liliana significa "lírio" e designa uma flor que é o símbolo da inocência, pureza e beleza, representada na heráldica da fleur-de-lis, símbolo dinástico europeu que se encontrava particularmente associado à monarquia francesa.
A etimologia da palavra "lírio" provém de lilium, um nome latino derivado do grego λείριον/leírion, originário do copta hreri (Egipto, cerca de 200 d.C.) derivando este, por sua vez, do demótico hrry (Egipto, cerca de 600 a.C.) através de hrṛt, a palavra egípcia para "flor". No Japão, o lírio designa-se por yuri (百合) e esta palavra, para além de ser um nome feminino bastante comum, serve também para designar o amor e a atracção entre mulheres.

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Em português nos entendemos

Vou tentar escrever no português mais correcto que conseguir: sendo somente um entre os "apenas" nove milhões que escreve em português, não sinto nenhuma vontade de escrever em brasileiro. Ao contrário do Nuno Artur Silva, que gostaria que todos os portugueses passassem a escrever em brasileiro, uma vez que assim teriam acesso a um potencial mercado de 190 milhões de leitores, descontando os 16 milhões de analfabetos brasileiros e os ainda restantes milhões que pouco interesse teriam em ler o que os portugueses escrevem (especialmente os do calibre do Nuno Artur Silva).

Desde já envio os meu votos ao Nuno Artur Silva, que por mim pode passar a escrever em brasileiro. Em bom português lhe digo que pode muito bem ir levar no cu, ou como se diz em brasileiro: "ir tomar no cú!" Deste modo, o senhor Nuno Artur Silva pode fazer a primeira coisa, a segunda, ou ambas.

A entrevista "especial"

domingo, 22 de maio de 2011

Guia auxiliar para a campanha eleitoral

Todos os conceitos apresentados em seguida foram desenvergonhadamente sacados à wikipedia e traduzidos para português, sendo posteriormente utilizados em conversas entre amigos, com o objectivo concreto de dar a pala do cagão.

Demagogia
(δῆμος demos, "povo" + ἄγειν agein, "liderar")
Estratégia para ganhar poder político apelando às emoções. Nomeadamente através dos preconceitos, medos, vaidades ou expectativas do público.
O método utilizado é a retórica apaixonada ou a propaganda (ver abaixo) com recurso frequente a temáticas nacionalistas, populistas (ver abaixo) e religiosas.

Propaganda
Forma de comunicação que visa influenciar a atitude do público relativamente a uma determinada causa ou posição. O exacto contrário de imparcialidade ou objectivismo.
Os factos são apresentados de forma selectiva, muitas vezes omitindo factos importantes para se chegar a uma síntese pré-definida ou agenda, produzindo uma reacção emocional (em vez de racional) à informação apresentada.

Populismo
Ideologia política e tipo de discurso que lhe é inerente.
Este tipo de retórica compara o Povo contra a Elite, tentando assim ganhar influência junto deste, através do recurso à demagogia.
A Elite é um pequeno grupo, dominante numa determinada sociedade, cujo estatuto privilegiado é invejado por outros indivíduos que se encontrem num patamar inferior.

Non sequitur ("não segue")
A conclusão de um argumento não segue as suas premissas. A conclusão pode ser verdadeira ou falsa, mas a argumentação é falaciosa devido à falta de conexão entre a premissa e a conclusão. Todas as falácias formais são um caso específico de non sequitur.

Ignoratio elenchi ("ignorância da refutação")
Falácia de relevância. Muito utilizada. Argumentação que até poderá ser válida, mas que não se destina ou é irrelevante para o assunto em questão. Mudança de assunto.

Ad hominem ("ao homem")
Ataque pessoal, com o objectivo de invalidar a argumentação adversária. Pode recorrer ao insulto ou ao menosprezo, salientando falhas de carácter que são irrelevantes para a argumentação.

Envenenar o poço
Tipo de ad hominem onde é apresentada informação adversa em relação a uma pessoa-alvo, com o objectivo de desacreditar tudo aquilo o que essa pessoa-alvo possa dizer.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Heróis do Mar

As redes sociais foram invadidas em força pelo "Portugalnomics: Ep.1" (pelos vistos tem continuação) que posteriormente desaguou nos media tradicionais. A peça gráfica que presumo se pretendesse leve e bem humorada, foi levada a sério por muita gente.
Muitos aspectos deste vídeo fizeram-me lembrar a experiência que tive com alguns estudantes escoceses de Erasmus, que se gabavam da contribuição que os escoceses deram ao mundo, desde o golfe, da televisão, do telefone, da máquina a vapor, da penicilina. Em suma, os escoceses tinham inventado quase tudo. Este tipo de mitologia faz parte do meme cultural dos povos.
As referências a Cascais e ao Estoril são exageradas, embora tal fosse de esperar tendo em conta o patrocinador. O vídeo está engraçado. Pelos vistos, as pessoas que se preocupam muito com essa coisa dos "factos" não demonstram sentido de humor. Mas ia lá eu perder a oportunidade de estragar a diversão dos outros. Aquilo tem tantos erros que até dá para escolher os favoritos.

A origem da palavra japonesa "arigatō".
Já tinha tido esta discussão com um conhecido meu. Este é um erro bastante comum e até existem livros editados que fazem referência a este mito, que estudos posteriores vieram a desmentir.
Esta palavra já existia antes dos portugueses chegarem ao Japão.
Arigatō (有り難う, embora também possa ser escrito em hiragana ありがとう) deriva do adjectivo arigatai, uma variação moderna de arigatashi (有り難し) que por sua vez é composto pelo verbo ari (有り, ser) e pelo adjectivo katashi (難い, difícil). A acepção é a de algo como "o mais difícil" ou "coisa rara", no sentido de algo que merece ser agradecido. Não existe nenhuma relação com o português "obrigado", que tem o mesmo significado.
Existem contudo dezenas de palavras japonesas com origem no português, que são chamadas de garaigo (palavras emprestadas) e são sempre escritas em katakana ou romaji. A minha favorita é pan (パン, pão).

O primeiro país no mundo a abolir a pena de morte.
Este é outro dos mitos bastante divulgados. A primeira vez que a pena de morte foi abolida foi na China, entre 747 e 759, durante a dinastia Tang. Mais tarde, devido à influência dos sacerdotes xintoístas, a pena capital foi abolida no Japão em 818, sendo reintroduzida em 1156.
No ocidente, Leopoldo II de Habsburgo, aboliu a pena de morte no Grão-Ducado da Toscana em 30 de Novembro de 1786. A República Romana, um estado que existiu apenas durante o ano de 1849, após o Papa ter fugido de uma revolta popular, aboliu a pena capital durante a sua curta existência. Este último movimento veio a inspirar a abolição na Venezuela, em 1863, e em São Marino, em 1865. A última execução em São Marino tinha sido em 1468.
Portugal aboliu a pena de morte em 1867, após ter tentado por duas vezes, sem sucesso, em 1852 e 1863. Iriam passar cerca de cem anos até que o próximo país, neste caso o Reino Unido, abolisse a pena capital. Talvez o mito esteja relacionado com isso.

Aquilo que roubámos a árabes e judeus e não queremos admitir.
A vela latina é possivelmente de origem romana, e a sua difusão entre nós deve-se aos árabes do Mediterrâneo, que a adoptaram após a conquista do Egipto e do Magrebe. Portugal conquistou os Algarves (do árabe الغرب al gharb, o ocidente) e acedeu a este e a outro tipo de tecnologias, que mais tarde a historiografia tentou apagar dos seus verdadeiros donos.
O "maritime compass" referido no vídeo deve ser a bússola marítima. Em inglês designa-se por dry compass. Talvez seja um problema de léxico. Não convém traduzir as coisas por afinidade.
De qualquer modo, a bússola marítima não foi inventada pelos portugueses. O crédito desta invenção vai para Flavio Gioja, um velejador de Amalfi, cidade pertencente à então República de Pisa. Embora todo o conhecimento técnico que permitiu o desenvolvimento desse tipo de instrumentos esteja fortemente enraizado nos astrónomos do Al-Andalus, como al-Zarqālī, e nos judeus sefarditas. Os médicos referidos no vídeo eram judeus.

Os europeus já sabiam que os gregos eram capazes de contabilidade criativa. Com este vídeo, os finlandeses ficam a saber que os portugueses são capazes de historiografia criativa.
Mal posso esperar pelo Ep.2 para ver se continua a irritar a intelectualidade bem pensante cá do burgo. Queriam eles que algo Made in Portugal não estivesse cheio de erros. Os snobs do Estoril não se devem estar a importar muito com isso e os finlandeses também não.

domingo, 24 de abril de 2011

Ostara

Denise Milani

A Páscoa do hemisfério norte é realizada durante a primavera. Nesta altura do ano a biosfera renova-se após as agruras do inverno, através da acção de uma das deusas da primavera chamada Ôstarâ, ou Ēostre ("Deusa da Aurora", em inglês antigo) que depois veio dar no conhecido cognato Easter ("Páscoa", em inglês).
O sol invicto, representado por Cristo, renasce através do mesmo tipo de ressurreição que as antigas deusas da primavera utilizavam para despertar a Terra. As prolíficas ninhadas dos coelhos e das lebres são um símbolo desse renascimento e os ovos, o resultado da fertilização, quais sumptuosas tetas, representam a fertilidade da Deusa.

sábado, 16 de abril de 2011

Palavras belas

Victória Guerra

A deusa romana Victoria personificava o acto de vencer o inimigo em batalha, e estava fortemente associada à deusa Bellona, da qual deriva a palavra latina para "guerra" (bellum - luta, conflito) e cuja etimologia se pode encontrar no equivalente "beligerante" (latim belligerans, -antis, particípio presente de belligero, -are, fazer a guerra, lutar).
A palavra "guerra" foi adoptada pelos povos latinos, a partir do franco (werra, a partir do germânico verwirren) devido à tentativa de evitar a palavra bellum, que era semelhante ao adjectivo "belo" (bello-, beleza).

in Priberam: vitória, guerra

segunda-feira, 7 de março de 2011

Estava eu sossegado...

A minha falta de compaixão pelos outros deve ser do excesso de chá preto que ando a beber. O Entrudo é um tempo onde nos transfiguramos de outra coisa. As suas máscaras servem para esconder o nosso Eu interior, ou por outro lado, para mostrar um tipo de Eu que está escondido do resto da sociedade, por ser tão bestial e horrendo, que poderia causar repulsa nas mentes mais civilizadas, chocadas com esse tipo de cadência primária e visceral.
A serpente sou eu, e não sou ao mesmo tempo, se é que me faço entender. A palavra "máscara" provavelmente deriva do latim mascus ("fantasma"), embora até a sua verdadeira etimologia seja uma incógnita. O seu uso ritual serve para expressar um determinado poder, como o de um avatāra das trevas e do caos. A palavra latina "persona" designa um tipo de máscara, que ressoava ("per sonare") com a voz do actor que a usava. Neste caso, um uivo.

Tudo isto para explicar que me sinto farto. Nem sequer vou perder tempo a pessoalizar ou apontar minudências, pois toda a podridão que nos rodeia está bem à vista de quem a quiser ver. Tudo o que me apetece é disparar o meu vazio interior, a minha energia negativa, na direcção de quem os provoca.
Concretizando. Está no tempo e na altura de fazer cair tudo pela base. De derrubar as hierarquias que se desresponsabilizam dos crimes que elas próprias cometem. De sagrar as elites que dominam em todos os quadrantes da sociedade. De alvejar os criminosos acima da lei, neste auto-intitulado estado de direito. De fazer tábua rasa. De incinerar todos os que nos imbecilizam e corrompem no fogo da nossa própria raiva. De fazer valer o sentimento de justiça. Mesmo que fiquemos sozinhos. A solução é simples e simplista: eles não se conseguem desviar das balas - É só puxar atrás e recarregar. "Deus criou os homens, Samuel Colt tornou-os iguais". Porque nós somos mais e eles sabem disso. Só precisamos de ignorar o medo e encontrar a motivação para lutar. Onde quer que ela esteja.

sábado, 26 de fevereiro de 2011

Rasgar

Ai Shinozaki, Gravure Idol

Verbo transitivo: Romper, lacerar, abrir rasgão. Golpear, ferir. Praticar (uma abertura). Abrir fenda ou buraco em. Sulcar. Traçar, desobstruir, dar acesso. Dissipar. Arrancar, separar. Alargar, espaçar.
Figurativo: Alancear, compungir. Agravar, avivar. Desfazer, rescindir. Cavar, lavrar.

in Priberam

domingo, 2 de janeiro de 2011

Paz

Paz Vega

Substantivo feminino: Quietação do ânimo. Sossego, tranquilidade. Ausência de guerra, de dissensões. Boa harmonia. Concórdia, reconciliação. Paciência, pachorra.

in Priberam

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Cortesia

As cortes medievais estavam associadas ao comportamento educado, mas também à beleza. A palavra corte, que designa a residência de um príncipe, deriva do latim "cortem" (pátio fechado) a partir de "co" (junto) e "hortus" (pátio).
A palavra veio dar origem a cortesia, corte (no sentido de cortejar uma rapariga) e a locais fechados, como aqueles onde se situa os tribunais (inicialmente presididos por um príncipe) ou onde se praticam desportos, como o ténis (court).

Hoje, uma jovem sorriu para mim quando eu lhe agradeci, depois dela parar o carro numa passadeira para eu passar. Quem é que disse que o cavalheirismo já não existe?

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Seres sem coluna vertebral

Como vem aqui referido, Fernando Seara, o garboso autarca da muy nobre villa de Cintra, afirmou: “Se Gilberto Madail não for candidato, haverá um conjunto de circunstâncias que me poderão levar a reflectir” ou em linguagem matemática:
Madail ≡ [¬ Candidato] => (Circunstâncias ∴ [Reflectir ⊨ Candidatura])
Já tinha visto este tipo de pessoas antes. Estes que não se querem comprometer com nada e que se esquivam que nem vermes por entre os pingos da chuva, para que nada do que afirmem ou deixem de afirmar lhes seja atirado futuramente à cara, por entre essas ténues e delicadas estruturas de poder que dependem de lambe-botas e gente sem coragem que vive da imagem.
Pessoas que gostam de aparecer ao lado de carros de bombeiros, porque o povo gosta de ver tal coisa na televisão e ser constantemente enganado por intrujas deste calibre e dizer que a culpa é de outros.
Dizer que o Madail é titubeante e um invertebrado é quase um elogio, comparado com este miserável que é a vergonha dos sintrenses e a vergonha dos benfiquistas.

Imagem daqui

Adenda: Pelos vistos os presidentes associativos da Federação Portuguesa de Futebol vão todos ver o jogo de Portugal a expensas da mesma.
Talvez a Islândia seja muito longe para pagarem do próprio bolso, e apesar da Utilidade Pública ter sido retirada a esta instituição, os contribuintes portugueses lá encontrarão uma forma indirecta destes marajás se deslocarem aquele país, que isto da austeridade é só para alguns.

domingo, 1 de agosto de 2010

A ficção do Estado de Direito

Antes de passar ao assunto propriamente dito, vou escrever umas linhas sobre a linguagem e a forma como esta serve para mascarar certos conceitos e para controlar as pessoas. Uma parte importante do problema aqui abordado.
Qualquer estudante de ciências humanas repara desde cedo na diferença entre a abordagem anglo-saxónica e a dos povos latinos em relação à teorização dos vários aspectos do conhecimento.
Tomando como exemplo o conceito de colcheia (uma nota musical). Esta é designada pelos anglófonos de eight note (representando um oitavo da duração de uma nota inteira, a nossa semibreve) tornando o seu significado muito mais imediato do que o de "colcheia", que para um leigo, acaba por não significar nada.
Com o conceito de Estado de Direito passa-se o mesmo princípio. A designação anglo-saxónica de rule of law (o nosso Estado de Direito) indica que ninguém está imune à lei ou acima dela.
A ausência da rule of law é a rule of man (o estado autoritário) em que o poder da sociedade é aplicado de forma arbitrária por uma pessoa ou um grupo de pessoas. Este tipo de poder está normalmente associado a violações dos direitos humanos e outro tipo de atrocidades.

Com o julgamento na praça pública das duas figuras trágicas da actualidade nacional, a de José Sócrates e a de Carlos Queiroz, atingiu-se um estado que suplanta o direito, admitindo que seja originário do facto das hierarquias em Portugal funcionarem num sistema de submissão e terror psicológico.
Cada uma destas personalidades tem de lidar com o seu respectivo presidente, cínico e titubeante, adepto da intriga e dos esquemas financeiros. As respectivas oposições, partidos políticos sem direito ao poder executivo, no caso de Sócrates e o grupo de políticos e dirigentes federativos, no caso de Queiroz, tentaram forçar uma saída diplomática destes dois intervenientes, embora sem sucesso.
Ambos carregam o fardo do bode expiatório: Um carrega os problemas que o país atravessa (embora tenha a sua quota de responsabilidade) e o outro carrega a inabilidade e o fracasso da equipa nacional (embora também tenha a sua quota de responsabilidade).
Por fim e mais importante, ou grave, dependendo do ponto de vista: Em cada uma das respectivas investigações ou acusações de que foram e são alvo, o sistema judicial ou de disciplina aparenta ter sido sabotado e manipulado para servir determinados interesses hierárquicos, corporativos e políticos.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

A pronúncia mais fofa

Sofia Hilário, bastante alentejana e bastante fofa

Talvez seja pelo arrastamento das palavras, pelas sibilantes ou mesmo pelo facto de se abalar quando se vai embora. Existe algo de intrinsecamente suave na forma como o português se pronuncia nas planícies do sul do país, no falar alentejano.
O paragoge, ou a ênfase vocal no final dos infinitivos verbais, é determinante neste falar, como por exemplo em seri ou fazeri. A ausência do ditongo ei (celero, galinhero) e a aplicação do vocal oi em vez de ou (oiro) são outras das marcas características.
Actualmente é considerado um falar em risco de desaparecer, uma vez que o despovoamento da região que lhe deu origem fez com que o número de falantes tenha diminuído substancialmente ao longo de anos. Acresce a isto, o facto de ser uma das regiões mais desequilibradas em termos demográficos. Com uma população, em geral, bastante envelhecida, o que imposibilita a transmissão de certos aspectos culturais para as gerações seguintes.

Se nada for feito para inverter essa situação, o falar alentejano corre o risco de se extinguir dentro de alguns anos, altura em que perderá todos os seus falantes nativos. A estimativa de Krauss aponta para um cenário, em que, dentro de cem anos, as crianças já não o irão aprender a falar. Embora estimativas mais pessimistas apontem para um horizonte temporal situado nos próximos dez ou vinte anos.
Existem alguns processos para estabilizar e salvar este falar, que passam pela documentação e revitalização do mesmo. A documentação passa pela recolha e registo do falar em termos do seu léxico, gramática e tradição oral, como as canções e histórias populares.
O processo de revitalização do falar envolve meios educacionais, com empenho político e das comunidades locais na tentativa de aumentarem o número de falantes.

O problema principal do alentejano, e por extensão, da riqueza da matriz cultural portuguesa, deve-se ao facto da variante lisboeta do português meridional ser considerado o padrão linguístico. O que faz com que as elites culturais portuguesas, concentradas em Lisboa, optem por considerar o alentejano como algo estranho e rústico.
Em última análise, este falar deveria ser, em primeiro lugar, defendido pelos próprios alentejanos.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Entre a idiossincrasia do malapropismo e a sintaxe da paranomásia

Dito de outra forma: O dilema entre a característica peculiar da substituição de palavras homófonas devido ao resultado sem nexo servir para atingir um efeito cómico e os princípios e regras que norteiam a construção frásica no emprego de palavras com sonoridade semelhante.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Sob(re) Palavras

Ao ouvir falar sobre a origem da palavra "canção" fiquei interessado e resolvi investigar mais sobre o tema. A etimologia é uma ciência que revela muito acerca do modo como os povos entendem determinado conceito e a forma como este evolui no pathos emocional de cada povo.
A palavra canção seria assim, o que resta dos pequenos pedaços da tragédia grega. Do grego, tragodia, literalmente "canção de cabra", tragos (cabra) + oide (canção). O que faz sentido uma vez que a tragédia acaba por ser a evolução do drama satírico, onde os actores se vestiam de pele de cabra, representando sátiros, criaturas animalescas que encarnam o desejo animal e lascivo presente no ser humano, muitas vezes causa de sofrimento.
Uma vez que "tragédia" já engloba o termo oide na sua composição, seria natural que a origem desta palavra fosse anterior. De facto, o termo oide refere-se a uma canção lírica. A contracção aoide do verbo aeidein (ouvir cantar) que se relaciona com aude (ouvir) uma vez que o objectivo deste tipo curto de poemas era serem cantados. O termo está presente também em "melodia", melos (parte) + oide.

O acto de cantar encontra a sua raíz no latim cantare, que por sua vez, provém da base kan, que encontramos na maioria da linguas indo-europeias, como por exemplo na palavra grega eikanos (galo) literalmente a "ave que canta para o alvorecer".
Este termo está presente na palavra "encantamento" que é um tipo de feitiço mágico com carácter permanente ligado a determinada pessoa, objecto ou local. As palavras em si tinham outrora um determinado poder e o carácter mágico destas era então bastante valorizado, sendo a principal forma de praticar magia, como um mago que já tenha sido silenciado bem sabe.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

O Urso de Corbiniano

Um cavaleiro desloca-se para a Cidade Eterna, a cidade que existirá até ao final dos tempos. Ao passar por uma floresta, o cavalo que carregava a sua bagagem é atacado por um urso.
Enquanto o urso se encontra a devorar o cavalo, Corbiniano (era este o nome do cavaleiro) sente que o espírito divino lhe irá dar a força suficiente para aplacar a fera. Esta, apesar da sua fúria bestial, ajoelha-se a seus pés. Instante que Corbiniano aproveita, para prender o carro que levava a sua bagagem ao urso, prosseguindo a sua viagem em direcção a Roma.
Corbiniano foi o orientador espiritual de muitas pessoas durante a sua juventude no Reino dos Francos, e por ser devoto, deslocou-se a Roma, onde foi ordenado bispo pelo Papa Gregório II.
O Papa envia Corbiniano numa missão à Baviera, para evangelizar as populações germânicas. Estabeleceu o bispado em Freising, cidade a Norte de Munique, onde os bávaros eram liderados por Grimaud, o mordomo franco da Austrásia.
Apesar da nobreza franca se ter inicialmente revoltado. A morte de Grimaud em batalha, fez com Corbiniano voltasse à Baviera para consolidar a sua evangelização.

A implicação do "Urso Corbiniano" é a de que "o Cristianismo amestrou e domesticou a ferocidade do paganismo, criando assim a fundação de uma grande civilização no Ducado da Baviera".
Para um Papa de origem bávara, como Bento XVI, esse simbolismo ressoa mais alto. Tal como o facto do urso ser o animal de carga do Senhor, o que simboliza o peso do cargo papal.
Bento XVI sabe bem as dificuldades que o seu pontificado irá atravessar. Por essa razão, sempre foi conservador, afirmando que a doutrina da Igreja não está sujeita a opinião. Sublinhando que o relativismo, ou seja, "aquilo que é verdade para ti, não o é para mim" é um tipo de argumentação que corroí as fundações da sociedade e dos crentes, uma vez que estes dependem da verdade universal.
Todas os totalitarismos converteram ideologias que dependiam de diferentes pontos de vista, e transformaram-nas em verdades absolutas, contribuindo para o falhanço social.
Todo o anticlericalismo que atravessa a sociedade ocidental, especialmente a europeia, mais laica e progressista, confronta as visões do Vaticano nesse aspecto importante, relativizando tudo. O que me leva a pensar que o fardo do pontificado talvez venha a ser muito pesado.

Numa altura em que o líderes políticos mais bem sucedidos são aqueles que dominam a linguagem, não deixa de ser reconfortante, ou talvez não, que o Papa seja um teólogo conceituado, com várias obras publicadas.
O seu nome pontifico significa "o abençoado", devido ao seu desejo de conduzir os crentes através de um cenário e de um tempo de Guerra e o desejo de regressar às raízes cristãs da Europa.
A Europa, apesar da sua herança cristã, amplamente conferida nas cruzes das bandeiras dos respectivos países, tende, progressiva e progressivamente, a afastar-se desses valores. Estes incluem a adoração a Deus, a fidelidade no Matrimónio, a renúncia à mundanidade e à violência, o perdão pelos pecados e o amor incondicional.
Claro que as sociedades modernas, especialmente as europeias, encaram a Liberdade como um valor acima desses todos. A liberdade de não acreditar, a liberdade de afectos e sentimentos, a liberdade de trair, a liberdade da indulgência e do hedonismo, a liberdade de odiar.
A Liberdade versus a Ordem, os demónios versus os anjos. Vivemos tempos apocalípticos e é com essas escolhas que teremos de viver.