Trinta e nove anos de oligarquia com sabor a participação eleitoral, numa sociedade governada por bancários e magnatas, que pende à esquerda mas que elegeu um presidente, um governo e uma maioria de direita. Uma direita revanchista que esperou pacientemente uma oportunidade de se vingar e de acertar contas com Abril, uma vez que domina a forma como os portugueses pensam devido a um criterioso esquema de lavagem cerebral. A discussão política, segundo a opinião das gerações mais velhas, foi uma moda dos anos setenta. Actualmente só a bola se discute com a mesma intensidade porque o homem-público criou um fosso entre ele e a ralé, para evitar a discussão e permitir que toda a análise política seja essencialmente demagógica.
Este marasmo desenvolve-se numa sociedade infantilizada e acrítica, porque quem está no topo não quer cidadãos que pensem. Porque se pensarem, chegam facilmente à conclusão que poderiam perfeitamente não estar sujeitos à miséria de vida que têm. Essa consciência levaria a que cidadãos com C grande se revoltassem, e ninguém quer que a Revolução se faça, porque isso vai contra os "interesses" dos nababos que se encontram acomodados no alto do seu pedestal. Só numa sociedade infantilizada e acrítica é que mitos como o de "ter vivido acima das nossas possibilidades, "ter que pagar a dívida", ou o de que "gerir um País é como gerir uma casa" encontram razão de ser. A eutanásia da sociedade está em curso já desde há algum tempo.
O dia feriado deveria ser a 7 de Abril (de 2011), o dia em que a Troika aterrou na Portela. O regime de 25 de Abril (de 1974) já não existe desde o édito Aprilis Finitum e do momento em que a "República Portuguesa" passou de ser uma nação agiota a um protectorado do FMI. A agiotagem é essencialmente contra os valores de '74 uma vez que não respeita o indivíduo ou a Liberdade. A agiotagem pretende a escravidão do indivíduo através da escravidão de toda uma sociedade. O sequestro de uma geração e de décadas de vida do povo português, cujo sangue e suor irão alimentar a ganância voraz do sistema financeiro mundial, e onde Abril (de '74) é apenas uma gargalhada nos corredores de um arranha-céus nova-iorquino.

Não me chateiam os anticiclones com apófise polar. Prefiro que a referida protuberância esteja situada na Sibéria do que sobre o Atlântico Norte, uma vez que o tempo frio e seco se torna menos incomodativo do que o tempo frio e húmido. Foram semanas frias e cheias de cinismo, em que se apelou aos portugueses para serem menos piegas, ao mesmo tempo que se fodia o Carnaval e que o Deutsche Bank apostava com a vida dos velhos. Mas calma, que tudo isso foi antes do ministro Gaspar se curvar em agradecimento ao seu mestre alemão, e da Grécia ficar em chamas. Embora o incêndio helénico tenha sido num banco, que os gregos sabem perfeitamente de quem é a culpa. Mesmo que a televisão por vezes se vá esquecendo de o dizer.
O acordo de concertação social serviu para o governo poder implementar a sua agenda dogmática, sem a necessidade de extirpar o socialismo da constituição, e conseguindo fazer da precariedade a base do sistema laboral português. Podem argumentar que esta ainda não representa a maioria do trabalho em Portugal, mas estas coisas demoram tempo. O que faz uma certa impressão é o tom de regozijo com que responsáveis governamentais e comentadores a soldo do governo defendem o acordo.
Os três corpetes representam, obviamente, a troika. No final dos anos setenta e princípio dos anos oitenta, ainda o PREC estava fresco, a metáfora utilizada para sufocar os portugueses era o "apertar do cinto". O cinto servia para tudo. Para bater nos mais indisciplinados e para apertar a fome.
Se existe algo de bastante engraçado nas "revistas do ano", que todos os canais noticiosos costumam fazer por esta altura, é a constatação da quantidade infindável de notícias de merda e de manipulação que aconteceram durante o ano que agora finda. As pessoas que editam esse tipo de coisa poderiam apresentar os fenómenos que só se conseguem detectar a longo prazo, e aproveitar para desmistificar o jogo político, e a ilusão dada aos cidadãos de que têm opção de escolha eleitoral. Mostrar a parede de tijolo, como diria Zappa, onde tudo é encenado para que nós acreditemos. Houve este ano várias campanhas eleitorais, o que não houve foi eleições.
Acto I: A bola enquanto produto cultural.
1. Usar um edredão na cama, devido ao acentuado arrefecimento nocturno.
Tenho de deixar de sonhar com cadáveres carbonizados, que dão a ilusão que se movem devido ao vento. Quando não me lembrava dos sonhos, a vida era mais fácil. Devo no entanto avisar os membros do governo mais os deputados das comissões da treta para acabarem com a guerrilha partidária. ...é só porque o pessoal já anda farto! Até podem continuar na mesma a fingir que governam, mas o pessoal já anda farto...
O ódio ao funcionalismo público, que o governo pretende fomentar e usar em seu favor, é a premissa base
Os vários fora deveriam ter analisado o problema deste modo: Comparar o valor de 691 mil milhões de dólares (mais de 500 mil milhões de euros à taxa actual) do banco de investimento Lehman Brothers, com o PIB anual de Portugal, de cerca 172 mil milhões de euros, para meter as coisas em perspectiva.