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quinta-feira, 25 de abril de 2013

Um Abril que soa a marcha fúnebre

Trinta e nove anos de oligarquia com sabor a participação eleitoral, numa sociedade governada por bancários e magnatas, que pende à esquerda mas que elegeu um presidente, um governo e uma maioria de direita. Uma direita revanchista que esperou pacientemente uma oportunidade de se vingar e de acertar contas com Abril, uma vez que domina a forma como os portugueses pensam devido a um criterioso esquema de lavagem cerebral. A discussão política, segundo a opinião das gerações mais velhas, foi uma moda dos anos setenta. Actualmente só a bola se discute com a mesma intensidade porque o homem-público criou um fosso entre ele e a ralé, para evitar a discussão e permitir que toda a análise política seja essencialmente demagógica.

Este marasmo desenvolve-se numa sociedade infantilizada e acrítica, porque quem está no topo não quer cidadãos que pensem. Porque se pensarem, chegam facilmente à conclusão que poderiam perfeitamente não estar sujeitos à miséria de vida que têm. Essa consciência levaria a que cidadãos com C grande se revoltassem, e ninguém quer que a Revolução se faça, porque isso vai contra os "interesses" dos nababos que se encontram acomodados no alto do seu pedestal. Só numa sociedade infantilizada e acrítica é que mitos como o de "ter vivido acima das nossas possibilidades, "ter que pagar a dívida", ou o de que "gerir um País é como gerir uma casa" encontram razão de ser. A eutanásia da sociedade está em curso já desde há algum tempo.

O dia feriado deveria ser a 7 de Abril (de 2011), o dia em que a Troika aterrou na Portela. O regime de 25 de Abril (de 1974) já não existe desde o édito Aprilis Finitum e do momento em que a "República Portuguesa" passou de ser uma nação agiota a um protectorado do FMI. A agiotagem é essencialmente contra os valores de '74 uma vez que não respeita o indivíduo ou a Liberdade. A agiotagem pretende a escravidão do indivíduo através da escravidão de toda uma sociedade. O sequestro de uma geração e de décadas de vida do povo português, cujo sangue e suor irão alimentar a ganância voraz do sistema financeiro mundial, e onde Abril (de '74) é apenas uma gargalhada nos corredores de um arranha-céus nova-iorquino.

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Delicatessen


Delicatessen é uma comédia negra francesa dos anos noventa acerca de um talhante que atrai pessoas para a sua loja através de ofertas de trabalho, para então aí as matar e vender a carne aos seus clientes. Vem isto a propósito da mediatização de Adriana Xavier, a rapariga que abraçou um polícia durante a manifestação de 15 de Setembro e que teve esse momento fotografado, publicado, partilhado e comentado até à exaustão, tornando-se o ícone desse dia.
Com a voragem a que os media nos habituaram, Adriana apareceu em televisões e jornais, culminando a sua ascensão mediática, por enquanto, nas fotos de glamour que tirou para a revista VIP, ou como dizia um amigo meu: "ela manifestou-se e conseguiu uma oportunidade de trabalho" naquilo que era um dos objectivos iniciais do protesto, para lá das reivindicações justas de querer lixar a Troika e do regresso das vidas aos seus legítimos proprietários.
Isto não é uma sociedade. Isto é o consumo de corpos de uma forma dir-se-ia quase vampiresca. Quem pensou que isto era um texto sobre política deve-se ter enganado, uma vez que de facto isto é um texto sobre culinária.

A Direita dos blogues viu no gesto da rapariga uma premeditação oportunista, uma vez que estão habituados à agiotagem dos mercados de capitais e aos esquemas de pirâmide, onde cada um tenta intrujar o próximo e o trust negocial e as "acções" desinteressadas simplesmente não existem. A Direita que defende a barricada da situação, por razões mesquinhas que não interessa estar aqui a elaborar, tem todo o interesse em amesquinhar este fenómeno mediático.
A Esquerda por seu lado, comoveu-se com a beleza do gesto, como prova inequívoca da esperança que nunca perdeu na humanidade, de como a oposição pode ser feita com elegância e de como a revolução pode ser feita com flores, um fetiche que nunca a abandonou e que se encontra fortemente inspirado no imaginário das manifestações anti-Vietname dos anos sessenta.
No meio disto tudo está Adriana, a mulher, a desempregada. A realidade nem sempre soa tão tão bem como nós gostaríamos, mesmo que seja tão bonita como o coração humano. Aliás, para um talhante, um coração é algo que está somente à distância de um cutelo.

Imagem: José Manuel Ribeiro/REUTERS

quinta-feira, 12 de julho de 2012

O memorando é um "programa"


Ao contrário da propaganda nazi ou soviética, a propaganda do mundo ocidental é feita de forma mais esotérica, com várias programações, para que o programado não perceba que está a ser manipulado e para lhe dar a ilusão de liberdade.
Para fazer isso é necessário que o programado sinta que tem algum peso na sociedade e de artistas que o distraiam, como as vedetas televisivas de entretenimento. Nunca deve faltar financiamento para a propaganda.
Você até pode pensar que é imune à manipulação que a televisão lhe tenta fazer, mas não é. Por muita convicção que você tenha em determinado assunto, os manipuladores sabem que os clicks que lhe devem fazer no cérebro, para que você se oriente de uma determinada maneira, são os mesmos que para qualquer outra pessoa. O ser humano é baseado em emoções e essas são facilmente controladas pelos manipuladores, de forma mais básica ou mais ou menos sofisticada.

A ilusão do hipnotismo dos media baseia-se no facto do indivíduo se encontrar alheio à sua própria manipulação, e mesmo que tenha consciência dela, nada poder fazer para a evitar. Aqui não vale a pena pensar que existe um botão de desligar, por exemplo a televisão, porque a manipulação está por todo o lado e essa ilusão do controlo através do botão faz parte da manipulação em primeiro lugar.

quarta-feira, 25 de abril de 2012

O Totta-Açores paga bem

José Afonso - "Foi na cidade do Sado"

Apesar do sol se encontrar encoberto por nuvens, aqui fica este vídeo apropriado à data, uma vez que vivemos numa bronca armada pelas bestas do capital e somos geridos por um bando de jotas laranjinhas com o objectivo de acertarem contas com o 25 de Abril, e cujo lema maior é a doutrina de Milton Friedman segundo a qual "o lucro é mais importante do que a vida humana" e que confortavelmente todos os dias prepara um ensopado de borrego com a carne tenra de ovelha dos portugueses. Obrigado por estes 38 anos.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Matar pessoas não é só um modo de vida, é também um imperativo nacional

Não me chateiam os anticiclones com apófise polar. Prefiro que a referida protuberância esteja situada na Sibéria do que sobre o Atlântico Norte, uma vez que o tempo frio e seco se torna menos incomodativo do que o tempo frio e húmido. Foram semanas frias e cheias de cinismo, em que se apelou aos portugueses para serem menos piegas, ao mesmo tempo que se fodia o Carnaval e que o Deutsche Bank apostava com a vida dos velhos. Mas calma, que tudo isso foi antes do ministro Gaspar se curvar em agradecimento ao seu mestre alemão, e da Grécia ficar em chamas. Embora o incêndio helénico tenha sido num banco, que os gregos sabem perfeitamente de quem é a culpa. Mesmo que a televisão por vezes se vá esquecendo de o dizer.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Os habilidosos

O acordo de concertação social serviu para o governo poder implementar a sua agenda dogmática, sem a necessidade de extirpar o socialismo da constituição, e conseguindo fazer da precariedade a base do sistema laboral português. Podem argumentar que esta ainda não representa a maioria do trabalho em Portugal, mas estas coisas demoram tempo. O que faz uma certa impressão é o tom de regozijo com que responsáveis governamentais e comentadores a soldo do governo defendem o acordo.
Com o novo documento que gere as relações laborais, os trabalhadores a recibos verdes passam a dispor do direito a subsídio de desemprego. Trata-se do assumir da precariedade como um estado inevitável. Os trabalhadores a recibos verdes eram vistos como uma maioria de profissionais liberais no país das maravilhas do poder político. Como agora o poder político não pode mais ignorar a realidade de que os trabalhadores a recibos verdes são escravos por contra de outrem, que só beneficiam os custos de mão-de-obra das empresas que os contratam, disponibilizou-se essa medida de elementar justiça. Deste modo, um trabalhador a recibos verdes não irá descartar uma oferta de escravidão, uma vez que este até terá direito a subsídio para caso e quando... quando ficar desempregado.

Claro que o acordo é vergonhoso para os sindicatos, e numa tentativa de sacudir a pressão do capote, João Proença da UGT acusou alguns altos dirigentes da CGTP, que já tinham abandonado as negociações, de o terem aconselhado a assinar o acordo com os restantes parceiros. Mesmo que tal fosse verdade, só o facto de estar a revelar conversas privadas mostra bem a falta de decoro e de educação de João Proença. Em seguida, faz uma referência vaga aos dirigentes que ele acusa de terem tido esse comportamento, sem os nomear. Algo que, no caso, seria de elementar bom senso, caso ele quisesse esclarecer o assunto trazido à baila por ele próprio. Não o fazendo, percebe-se obviamente que existe manipulação e argumentação falaciosa, mesmo que essas conversas até tenham existido. Ninguém pode provar o contrário.
Por último, as declarações não fazem nenhum sentido. A CGTP não costuma assinar nenhum acordo de concertação social, e obviamente que nunca iria assinar o acordo mais nefasto de sempre para a mão-de-obra e o factor trabalho, enquanto que a UGT foi criada propositadamente para assinar este tipo de acordos, ainda para mais, conhecendo-se a posição de subserviência de A. Jota Seguro em relação ao governo, sendo por isso fácil de perceber a atitude de João Proença.

Com a desculpa da troika, o governo martelou a meia-hora diária adicional, dando até o exemplo em conselhos de ministros, que duravam mais meia-hora do que o necessário, para que a demagogia populista ficasse mais vincada na opinião pública. As críticas à meia-hora resumiam-se a um embaratecimento do trabalho, que se traduziria em cortes de salários, uma vez que o trabalhador iria ser obrigado a trabalhar mais pelo mesmo salário. Como os membros do governo e patronato não são principiantes em matéria económica, estes sabiam muito bem que o aumento de meia-hora no horário de trabalho não iria aumentar a produtividade, quanto muito iria aumentar a produção, e mesmo isso era discutível. A produtividade só aumentaria se a produção horária ou por unidade de trabalho aumentasse. Muitos portugueses nem sequer sabem a definição de produtividade, por isso a manipulação mediática pode ser implementada sem receio. O feudo do poder em relação a quem pudesse desmontar e explicar a mentira fez o resto.
Ao fim de alguns meses de manipulação mediática, percebeu-se que a proposta da meia-hora servia para estipular o acordo, dando à UGT algo com que pudesse brandir na cara da opinião pública como se fosse uma conquista negocial.

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Rádiotelevisão de Angola


O ministro Relvas com ar de frete, à procura de um comprador para a sua retrete.
O graúdo capataz que de tudo é capaz, na degola mercantil em Angola e no Brasil.
A Fátima Campos Ferreira, enrolada à maneira na vestimenta tradicional. A prostituta quadrilheira do nosso audiovisual. Propaganda mal feita. Propaganda banal. Rui Veloso e Paulo Flores, ao vivo e a cores. Nem muito popularucho, nem muito elitista, que a propaganda é um estucho para tapar a tua vista. Um cambão bastante quente no coração de toda a gente.

As prostitutas vendem-se sem vergonha, porque a pobreza de espírito não se coaduna com a sofisticação. Portugal é um país de massa bruta, porque o povo português é um povo sem educação. Um povo de filhos da mãe e de filhos da puta. Um povo que já desistiu de ir à luta.

sábado, 14 de janeiro de 2012

Os donos de Portugal

dono |ô|
s. m.
1. Pessoa a quem pertence alguma coisa; senhorio.
Plural: donos |ô|.
in Priberam


Os políticos só servem os seus donos. Apesar de se ter imposto anteriormente uma referência a Eduardo Catroga, uma vez que a fronha do senhor foi das mais vistas durante a semana nos media televisivos, resolvi dedicar um texto em exclusivo à idiossincrasia dessa espécie particular de imago, cuja larva é mais conhecida por "ministro cavaquista das finanças" e cujo estilo de vida parasítico causa o declínio desta árvore onde todos vivemos, conhecida como Portugal.
Para além destas tiradas metafóricas, devo referir que nem todos têm a vantagem de ser defendidos publicamente pelo Primeiro-ministro, como aconteceu com Catroga. Um puto qualquer que tenha partido acidentalmente um vaso não tem à sua disposição o Primeiro-ministro a vir em seu socorro com gráficos, uma vez que já ninguém acredita naquilo que os políticos dizem, para explicar que nada tem que ver com as nomeações e respectivas compensações de que os conselheiros da EDP vão usufruir.
O que faz até algum sentido. Afinal, Passos Coelho é somente um empregado que faz aquilo que os grupos económicos lhe dizem para fazer, que faz aquilo que os banqueiros e a alta finança lhe dizem para fazer, e que faz aquilo que outros líderes europeus, que por sua vez são empregados dos grupos económicos dos seus respectivos países, lhe dizem para fazer.

Isto tem de ser visto de forma pragmática. Os chineses da China Three Gorges Corporation apenas quiseram alguém que tivesse a necessária influência sobre o governo e o Primeiro-ministro em particular, para a sua subsidiária. A pergunta feita por eles foi acerca de quem seriam as pessoas indicadas, às quais bastaria uma palavra para que Passos Coelho obedientemente se sentasse, rolasse, desse a patinha e se fingisse de morto. A primeira que vem à memória é Ângelo Correia. Mas na falta dele, Eduardo Catroga serve perfeitamente, tendo a vantagem de conhecer a empresa. A palavra-chave aqui é "obediência" e sem dúvida que Passos Coelho ouvirá atentamente Catroga, como pessoa atinada que é. Tal como obedecerá a Ilídio Pinho, o seu antigo patrão (uma vez patrão, patrão para sempre) e como obedecerá a Paulo Teixeira Pinto, que lhe escreveu a proposta de revisão constitucional, que não foi avante porque estava a causar estragos eleitorais. No caso do partido parceiro de coligação, Celeste Cardona lá estará, para falar maternalmente a Paulo Portas.
Quanto à forma folclórica como Eduardo Catroga se comparou aos jogadores da bola, ao falar do seu valor de mercado para justificar o vencimento que irá receber, isso só revela o mindset e a arrogância de quem sabe que está acima dos portugueses, e se permite a ter este tipo de gozo com o próximo.

Continuando na temática dos donos de Portugal, também Braga de Macedo foi nomeado para o Conselho Geral de Supervisão da EDP. Mas o seu estatuto como um dos donos do país tornou-se mais evidente no nepotismo descarado com que patrocina a carreira da filha no meio das artes plásticas.
O facto de existir informação abundante que prova o favorecimento advém do facto de Braga de Macedo já não ser ministro e, consequentemente, não se preocupar com a imagem que projecta na comunicação social. A vergonha é um atributo dos pobres, pois implica que estes estejam mentalizados a aceitar um tipo de censura social. No caso de Braga de Macedo, tal como acontece com Catroga, o facto de pertencerem a uma elite torna-os imunes a qualquer tipo de crítica. O fisiologismo e o nepotismo são formas de corrupção, mas o facto de serem políticos corruptos não os afecta.
Se alguma vez a comunicação social domesticada que temos se lembrar de inquirir da falta de ética de ambos, estes poderão simplesmente ignora-la, ou convida-la para tomar um chá. Todos aceitamos que isto se passe desta forma porque esta é a sociedade que nós criámos. Os portugueses deixaram que estas pessoas se tornassem donas do país, porque não sabem ser cidadãos, ou então não querem.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Sete fronhas e um lençol

Os três corpetes representam, obviamente, a troika. No final dos anos setenta e princípio dos anos oitenta, ainda o PREC estava fresco, a metáfora utilizada para sufocar os portugueses era o "apertar do cinto". O cinto servia para tudo. Para bater nos mais indisciplinados e para apertar a fome.
Na crise pós-2008, o cinto já não chega, uma vez que os hipermercados estão a abarrotar e pede-se ao povo que consuma. A peça mais indicada para apertar o povo é o corpete, porque a troika e o governo querem espremer o tórax das pessoas, até que estas deixem de conseguir respirar.
O avental é obviamente Jorge Silva Carvalho. Embora também pudesse ser o deputado Luís Montenegro, que fala em inglês na Assembleia da República para dar um ar refinado. Silva Carvalho até poderia ser "investigado" por uma comissão parlamentar dominada por Montenegro, caso estivéssemos no país da inocência.
Silva Carvalho não fala, Silva Carvalho facebuca. Dislates que as televisões alegremente publicitam, juntamente com os vídeos do Pinheiro de Azevedo, uma vez que a obediência passa por dar o devido destaque à propaganda de Silva Carvalho.

As sete fronhas são hediondas. Monstros cuja face provoca o vómito e o asco. Para além das fronhas de Silva Carvalho e Luís Montenegro, temos direito à fronha asquerosa de Manuela Ferreira Leite, a defender que os doentes com mais de setenta anos só tenham direito à hemodiálise se a pagarem.
O pagamento das horas extraordinárias dos médicos vai sendo reduzido, para que estes achem o Serviço Nacional de Saúde pouco apelativo. Aos poucos vão fugindo para o privado. Para quê ter médicos competentes num serviço estatal, quando podem estar a enriquecer a administração de uma clínica privada?
Esta é a filosofia escrita na fronha de Paulo Macedo, ministro da Médis, gestor fiscal e director-geral dos impostos quando Ferreira Leite era ministra das Finanças. O lucro é mais importante do que a vida humana e quem faz hemodiálise é porque lhe apetece.
Não é como nos Estados Unidos, onde se alguém responde que é pobre lhe dizem que não tem direito a nada. Por cá, recomendam-lhe que vá ao Serviço Nacional de Saúde, e se você argumentar que o Serviço é miserável, vão-lhe responder que também você o é. O lucro é mais importante do que a vida humana.

A quinta fronha (poderia ser a quinta coluna) é a de Francisco Pinto Balsemão, cujas cirurgias plásticas não conseguem esconder a degradação da dita. Mas pior do que a degradação da fronha é a degradação da ética e dos princípios. Os jornais televisivos deram zero destaque à polémica criada pelas declarações de Ferreira Leite, o que revela que Balsemão tem de facto poderes. Pior do que o apagão analógico é o apagão da informação televisiva, e o condicionamento para que não se fale do assunto sem ser em blogues e redes sociais, que só são escrutinadas se forem o facebook do Silva Carvalho. Quanto ao resto, temos aquela gente que deita sempre água na fervura, para dizer que aquilo que a fronha de Ferreira Leite disse não era afinal bem aquilo que essa fronha queria dizer. Eis o lençol português, tapando e escondendo a porcaria e podridão das figuras públicas, ao mesmo tempo que embala os portugueses no seu sono, para que estes sejam roubados mais facilmente.
Por fim, aparecem as fronhas sorridentes de Miguel Relvas e Zeinal Bava, no momento simbólico do desligar do sinal de televisão analógico. Já a pensarem nos milhões que vão entrar com o negócio do espectro de frequências, que era de todos nós.

O lucro é mais importante do que a vida humana.

sábado, 31 de dezembro de 2011

Se hibernasse, não jantava. Se não jantasse, não tinha de levar com isto

Se existe algo de bastante engraçado nas "revistas do ano", que todos os canais noticiosos costumam fazer por esta altura, é a constatação da quantidade infindável de notícias de merda e de manipulação que aconteceram durante o ano que agora finda. As pessoas que editam esse tipo de coisa poderiam apresentar os fenómenos que só se conseguem detectar a longo prazo, e aproveitar para desmistificar o jogo político, e a ilusão dada aos cidadãos de que têm opção de escolha eleitoral. Mostrar a parede de tijolo, como diria Zappa, onde tudo é encenado para que nós acreditemos. Houve este ano várias campanhas eleitorais, o que não houve foi eleições.
Claro que é sempre bonito recordar uma Sandra Felgueiras de lágrimas nos olhos, depois de levar com uma granada de gás lacrimogéneo, na tromba e em Atenas, ou da excitação do João Adelino Faria, ao falar do casamento real, que nas suas palavras foi extremamente importante, não só para Inglaterra e para Europa, como até para o mundo. Justificando esta última tirada, com o facto desse evento ter sido coberto por uma miríade absurda de media, usando assim a falácia do argumentum ad populum. Falácia essa, que foi atirada na cara dos telespectadores sob a forma de interrogação. Tão manipulativo, este nosso João Adelino! Deve ser o excesso de açúcar do Natal.

Mas nem só da amostra de jornalistas vive este fim de ano. O outro lado do espelho da propaganda manipulativa, no circo que é a sociedade portuguesa, são os políticos. O ministro da tutela foi passar o réveillon na Madeira. Miguel Relvas, que entende como ninguém a forma como a informação deve ser comunicada aos portugueses, em tipo, conteúdo e timing, juntou-se ao "Bokassa" da Madeira, para juntos fazerem uma operação de charme e, ao mesmo tempo, descansarem uns valentes dias dessa actividade extremamente extenuante, que é a de enganarem os portugueses.
Por fim, aproveito para exprimir os meus desejos para 2012, com todo o fel que envenena e apodrece esta sociedade. Não consigo ter qualquer espírito positivo, e de qualquer forma, esse tipo de pensamento não me assenta. O que desejo para mim e para a humanidade deste canto da Europa, é que estejam num sítio seguro, quando isto começar a decair e, depois, a desmoronar. Estas são palavras de esperança. Não aquele empacotado do marketing obamiano, mas uma que radica na crença da sobrevivência. Este ano vai ser o ano dos excluídos, dos pobres, dos velhos, dos jovens, e, de um modo geral, de todos os que precisam de ganhar consciência de que só se deixam manipular se assim quiserem. Não será fácil, mas espero que dê frutos.

Annum faustum
Apophis

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Cagadelas de pombos

Os pombos não fizeram greve. A sério, às sete da manhã lá estavam eles perfilados nos beirais, preparados para levantar voo, ignorando a monumentalidade do dia. Ricardo Salgado é recebido pessoalmente pelo Primeiro-ministro, mas o cidadão comum simplesmente não tem voz. Os pombos voam e cagam nos manifestantes e nos polícias, nos trabalhadores em greve e em labor, nos sindicalistas e nos governantes. Se ao menos o povo compreendesse a noção de poder, as suas idiossincrasias e peculiaridades, talvez tivesse mais sucesso a lutar contra esse mesmo poder. Deste modo, vai só entretendo a comunicação social com esse desporto recém-inventado da "queda das baias". Aliás, "baia" é o compartimento ou espaço ao qual se recolhe o animal.

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Alienação em três actos

Acto I: A bola enquanto produto cultural.
Existe ainda aquela noção romântica do futebol de defender um emblema sem outra recompensa que não seja a paixão pelo desporto em si. Mas isso é algo que hoje em dia está completamente arredado do futebol profissional e deve ser posto de parte neste exercício teórico. O objectivo aqui é sintetizar algumas ideias que definem a minha posição em relação a este fenómeno quasi religioso e tão semelhante ao "ópio do povo" marxista. O desporto em si chama-se association football e todo o impacto cultural em torno dele toma o nome de "bola".
O entretenimento desportivo para adultos, cuja invenção cultural é algo recente, foi estudado pelo britânico Alan Watt, que analisou a forma como os adultos sob o seu efeito ficam mentalmente presos na idade dos quinze anos. Este narcótico de massas nada tem a ver com a educação física, que é uma das etapas da instrução natural do indivíduo, embora, qual sanguessuga, o futebol corporativo se aproprie deste conceito para criar esquemas legais em proveito próprio, como o estatuto de utilidade ou de interesse público e o posterior beneplácito e adulação por parte do poder político.

Acto II: A mentalidade de rebanho.
A manipulação das massas é algo que tem sido estudado pela psicologia e posto ao serviço das corporações que têm o objectivo de controlar o indivíduo, perdido no meio da massa anónima. O papel privilegiado da Igreja em juntar o rebanho foi ocupado numa sociedade pós-industrial pelo deporto de massas. Mais uma vez, Watt afirma que, nos cem anos do "anglo-american establishment", esta reforma cultural foi projectada e implementada de forma consciente e eficaz. Watt refere H. G. Wells, o escritor de ficção científica que preconizou as "arenas desportivas", que se espalhariam pelo mundo, numa altura em que ninguém acreditaria que tal seria possível.
A pergunta pertinente a fazer é de que forma poderemos combater este esquema corporativo se estamos envolvidos na nossa própria guerra tribal? A resposta é simples: não se consegue. A tomada de decisões acontece num nível superior ao da nossa própria comunidade, uma vez que esta se encontra destruída e a energia dos indivíduos está canalizada para o desporto corporativo de massas, devido à orientação e para benefício dos nossos líderes culturais e engenheiros sociais.

Acto III: Valerá a pena alimentar o monstro?
Alan Watt afirma que quando se retira a virilidade ao individuo, este projecta-a em outros. Neste caso, numa equipa ganhadora, uma vez que, na realidade, esse mesmo indivíduo não tem poder nenhum. A atitude reprovável que certos pais tomam, ao filiarem um filho recém-nascido num determinado clube, mostra que desde cedo somos obrigados a escolher um lado da guerra, devido ao facto inerente de sermos seres tribais, seja de forma consciente ou não. Na opinião de Watt, esse tipo de "weekend warrior" é uma anedota. Eu simplesmente penso que é um ser básico.
Mas porque razão tomo eu partido numa guerra tribal? Se não tenho qualquer tipo de compensação por isso, seja financeira, emocional ou outra, como acontece com a generalidade de paineleiros e colunistas da bola. A questão está intrincada no princípio da guerra. Segundo a definição de Clausewitz: "A guerra é assim, um acto de força para obrigar o inimigo a fazer a nossa vontade" e a coerção é uma qualidade reptiliana. Pessoalmente acredito que a guerra é um aspecto integral da cultura humana, de que não podemos fugir, seja na guerra verbal entre indivíduos ou no conflito entre nações.

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Medidas contra a austeridade

1. Usar um edredão na cama, devido ao acentuado arrefecimento nocturno.

A estratégia de Passos é a mesma de Sócrates: aplicar as medidas a conta-gotas, ou algo espaçadas no tempo, para a proverbial capacidade de adaptação dos portugueses as conseguir ir aceitando sem muito desconforto, e a sua imagem política se degradar o menos possível. Assim, vamos alegremente caminhando para o Inverno.

A adaptação é mais fácil devido ao facto do BCE não imprimir mais moeda, o que faz com que a inflação não dispare. Por outro lado, os nossos bancos comerciais são obrigados a estar constantemente a despejar capital na economia, o que no nosso caso significa "grandes empresas públicas deficitárias", recusando o crédito às pequenas empresas. As mortes lentas são as preferidas dos sádicos.

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Olé, olé

Tenho de deixar de sonhar com cadáveres carbonizados, que dão a ilusão que se movem devido ao vento. Quando não me lembrava dos sonhos, a vida era mais fácil. Devo no entanto avisar os membros do governo mais os deputados das comissões da treta para acabarem com a guerrilha partidária. ...é só porque o pessoal já anda farto! Até podem continuar na mesma a fingir que governam, mas o pessoal já anda farto...
Já aqui tinha escrito, a propósito da Inês de Medeiros, que tolero melhor a arrogância num político do que a mentira ou a manipulação. A manipulação da vitimização. Coitado do pobre de espírito do senhor Miguel Macedo. Comparando com o que ganham, por exemplo, as crianças operárias filipinas que fabricam os bens que nós usamos, que ganham um punhado de tostões, literalmente cêntimos de euro, ninguém consegue reconhecer a elevação do senhor, ao se ter desprendido de tão fabulosa maquia.

Mas as comparações com os países em vias de desenvolvimento empalidecem com as comparações com os países desenvolvidos, aqueles países onde os ministros que são apanhados têm o imperativo moral de se demitirem. Portugal tolera bem os seus sem-vergonha. O ministro, mesmo sendo apanhado, poderia continuar a usufruir da sua pequena subvenção, que não iria ser isso que o iria desgastar. Será que os cidadãos contribuintes ainda não compreenderam que o dono do MAI pode fazer o que quiser? Será que o BPN já não mostrou ao cidadãos contribuintes que o dono do MAI pode fazer o que quiser? Tanta indignação para quê?
A espuma ao canto da boca do senhor Miguel Macedo, dono do MAI, com as suas tropas de choque em prontidão para aviarem no cidadão contribuinte, e depois este último indigna-se desta forma. Que injustiça!

domingo, 23 de outubro de 2011

Tempo de Chuva

Caem devagar as gotas de chuva no quintal,
enquanto assim sacodem de manso o limoeiro.
Amanhã verás os mercados do grande capital,
levarem a tua forragem de Inverno por inteiro.
Tudo o que tiveste, ó pequeno burguês, te será levado,
quando os doutores em economês te tratarem como gado.
Mas não te preocupes, que o pouco que te deixarão,
será o que agradecerás, de joelhos e chapéu na mão.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Isto é só um jogo

O ódio ao funcionalismo público, que o governo pretende fomentar e usar em seu favor, é a premissa base deste texto. A manipulação governamental tenta passar a ideia de que o Estado é caro, gordo e inútil, quando se sabe muito bem que não é possível erradicar todas as redes de comportamentos corruptos que lá existem, sem destruir a rede de assistência social, que é uma das obrigação do Estado.
Se o objectivo fosse tornar o Estado mais eficiente, não era preciso virem com esse tipo de discurso. Se o objectivo fosse dinamizar o mercado, tomavam-se medidas para estimular a concorrência, em vez de se privatizar sectores que são por natureza monopolistas, aproveitando a desculpa da crise, para os vender a um valor mais baixo.
Justificar o facto do governo ser obrigado a despedir funcionários públicos; os chamados cortes na despesa, com a falta de produtividade sistémica que se verifica na economia portuguesa é uma fraude. O governo só vai despedir porque é obrigado pelo exterior, e só tem medo porque é impopular. Não é por causa da ineficiência.

Dizer que os trabalhadores do sector público ganham mais do que os do privado é uma mentira. A falácia está no facto de se pegar na massa salarial do sector público e compara-la com a massa salarial do sector privado, quando certas actividades do Estado não existem no privado.
Os casos em que funcionários públicos ganham mais do que o seu equivalente privado está no facto dos primeiros terem progredido na carreira o suficiente para verem a sua experiência remunerada. Os aumentos dos salários na função pública estabelecem os aumentos dos salários no sector privado. Por isso, os últimos são sempre superiores.
O que este governo quer fazer é balizar tudo por baixo: um Estado mínimo e miserável para quem não puder pagar, e um sector privado que explore os seus trabalhadores em nome da falta de produtividade. Há que denunciar a agenda deste governo, que é bastante óbvia. A discussão entre o mérito devido ao trabalhador público versus o privado é uma discussão estéril e impede de ver o que está aqui realmente em causa.

Tenta-se confundir a opinião pública com o problema do défice. A comunicação social já não se refere ao défice em percentagem do PIB, porque um valor inferior a 10% não causaria muito impacto no cidadão. Se falarmos em cerca de 10 mil milhões de euros, o povinho fica muito mais impressionado. Não é, senhores jornalistas?
Tenta-se convencer a opinião pública que o problema é a dívida, sem referir se se trata da dívida soberana (governamental e municipal) ou da dívida privada, ou se é dívida interna ou externa. O verdadeiro problema é que a dívida soberana externa é simplesmente dinheiro fictício, com o qual vendemos a nossa soberania e fomos ocupados por forças estrangeiras. O que antes era chamado de Alta Traição. Dívida que só existe porque os credores sabem que é uma forma de manter Portugal em sentido. Mesmo que entremos em default, os "credit default swaps" reembolsam os credores. Eles sabem, tal como o governo, que a dívida vai ser impossível de pagar, mas mantêm a ilusão para o povo ir aceitando melhor a austeridade.

domingo, 16 de outubro de 2011

Teorias do descontentamento

Os vários fora deveriam ter analisado o problema deste modo: Comparar o valor de 691 mil milhões de dólares (mais de 500 mil milhões de euros à taxa actual) do banco de investimento Lehman Brothers, com o PIB anual de Portugal, de cerca 172 mil milhões de euros, para meter as coisas em perspectiva.
Essa foi a maior falência da história da humanidade, e se o nosso país entrasse em bancarrota, o impacto não seria tão grande, excepto na estabilidade do próprio Euro. Mesmo a descomunal dívida externa portuguesa de mais de 370 mil milhões de euros, fica aquém do valor acima demonstrado.
Deveriam ter falado dos 1,5 mil biliões (1.5 quadrillion/quinze zeros) de dólares da crise dos derivativos financeiros, que englobam as alavancagens especulativas, através de contratos como os futures ou os credit default swaps. O jargão parece complicado mas é só para afastar o cidadão comum da compreensão deste meio. Algo que os media informativos poderiam ajudar a decifrar, caso fossem deontológicamente isentos e não seguissem os interesses corporativos de quem lhes paga.

Sabendo que algo deste género seria inevitável, o cartel financeiro encontrou forma de passar este tipo de perdas para o cidadão contribuinte, para que este absorvesse o embate. O sistema funciona assim, e tudo correria sobre rodas, caso o cidadão contribuinte aceitasse que a culpa é dele.
Hoje em dia já não existem os afamados líderes do passado, que guiavam as massas. As próprias manifestações fogem ao controlo dos partidos políticos de protesto. A razão está na partilha de informação, onde as massas já não aceitam que alguém lhes filtre a informação e se torne num líder, num condutor. As massas podem estar sujeitas à demagogia e ser irracionais. Mas estas massas percebem, tal como um touro que é toureado, que algo está mal, quando lhe espetam com a austeridade.
Quem manda no toureiro não está interessado no dinheiro. O que lhes interessa é o poder. O dinheiro é apenas uma forma de submeter aqueles que não aceitam ficar sem soberania, que não aceitam ficar com a sua terra conquistada.
Os media informativos contam outro tipo de história, glorificando os parasitas.

Apesar de toda a manipulação, o cidadão contribuinte tem um limite para aguentar e o movimento resultante da sua indignação adquire contornos globais. Do mesmo modo que as estradas romanas serviram tanto para a expansão, como para o declínio do império, também a Globalização pode voltar-se contra si própria, desde que as pessoas, mais do que meros cidadãos contribuintes, tenham vontade para isso.
O "occupy everything" demora a descolar, mas torna-se mais forte à medida que ganha ímpeto. Não se vê nada no futuro que o faça abrandar: os governos vão continuar a ser controlados pelos grupos económicos, vão continuar a impor austeridade aos seus concidadãos, vão continuar a destruir a economia, vão vendendo aquilo que é de todos a alguns, a preço de saldo, ao cartel oligarca que manda no governo, cujos membros serão amplamente recompensados quando cessarem funções, dando ao povo a ilusão da participação democrática.
Os "indignados" são adversários do poder, e devem ser rotulados como um bando de indivíduos perigosos, pelos media informativos, para justificar a repressão.

Nota: O tratamento mediático da manifestação foi deplorável. A agenda dos jornais televisivos, desta tarde de Domingo, parecia o jornal do Crime, rebuscando a ideia de condenar a agressão a agentes de autoridade com a prisão preventiva. Pode ser que o cidadão pense duas vezes antes de atacar os cães de guarda que estão a defender um símbolo do poder, como a Assembleia. Desde o suposto arrastão da praia de Carcavelos, que são mais cuidadosos com a manipulação, mas não deixam de ser eficientes.
Em segundo lugar, a repressão está nos genes deste governo. 1982, ministro da Administração Interna: Ângelo Correia - dois operários mortos na véspera do 1º de Maio, pela polícia. 1994, ministro da Administração Interna: Dias Loureiro - revolta na ponte, reprimida pela polícia. Há aqui um padrão.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

República

República, do latim res publica, "coisa pública"; é uma forma de governo, onde o povo, ou parte significativa dele, tem um controlo supremo sobre a governação; através do estado de direito, da separação de poderes e do respeito pelos direitos fundamentais; e onde os cargos do Estado não são distribuídos devido a relações de poder familiar, militar ou empresarial.

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

F - A# - G# - C#

A vaidade intelectual é uma coisa lixada. Impede muita gente de ver a grandeza inerente em determinado momento musical e o impacto cultural resultante do agitar de pântanos estagnados. Porque foi isso que o álbum Nevermind fez, uma fotografia de uma catarse sonora, um instantâneo das emoções de Kurt Cobain, passados sob a forma de música.
"Smells Like Teen Spirit" rompe com o habitual na monotonia das canções pop que se ouviam até aí, através de uma fórmula de variação dinâmica que já se encontrava presente, por exemplo, no trabalho dos Pixies.
Nevermind é um rastilho, que depois incendiou os media. Os mesmos que já tinham utilizado o termo "grunge" no final dos anos 80, mas que não tinham nenhuma banda que fosse popular o suficiente para o massificar. Um rastilho semelhante ao "Anarchy in the U.K." dos Sex Pistols, que tinha sido lançado quinze anos antes, havendo por isso toda uma geração de pessoas que nunca tinha assistido a nada parecido.

Como qualquer rasgão no status quo musical, o torpedo sonoro entregue pelos Nirvana era pouco complexo e estimulava directamente os centros de recompensa do cérebro. Fazia parte da "Electric Church" popularizada por Jimi Hendrix, outro nativo de Seattle e, ao tempo, um arquitecto da Revolução.
Todas as bandas aspiram à Revolução, penso que esta frase foi dita pelos Sonic Youth, e a música anti-situacionista, seja a do Hendrix, a dos Pistols, ou a dos Nirvana, tem sempre o mesmo objectivo: mexer com a consciência das pessoas, agitar as águas, acordar qualquer coisa dentro da alma das pessoas que previamente estavam a dormir, embaladas pela música sem alma que lhes é fornecida pelo sistema.
Claro que o próprio sistema abraça essa mesma música, para depois a regurgitar e comercializar sem qualquer pudor, mas isso é algo que lhe é inerente. A pancada inicial, essa, fica para sempre, bem como o entalhe resultante na história. Reconhecer o seu contributo actual é algo da mais elementar justiça. O resto é inveja.


Nirvana - Smells Like Teen Spirit

sábado, 24 de setembro de 2011

O jardineiro das anonas

Isto sem bombas incendiárias não é a mesma coisa. Onde é que já se viu um clássico sem uma declaração da guerra tribal que lhe está associada. Maldita gente, que pensa que isto é só um jogo de futebol. Deve haver aqui mão da Administração Interna, que o antigo ministro deixava-se fotografar por entre os croquetes das festas da Luz, distribuindo incompetência. Desta feita, nem uma subida de tom, nem uma bolinha de golfe, e com o antigo ministro relegado a mero opinador do Correio da Manhã.
Devo esclarecer que este tipo de postura favorece a equipa que é naturalmente mais sofisticada, apesar da sua componente popular, uma vez que os tripeiros medram no ódio e na confusão que estes próprios geram.
Cada golo de empate foi como se fosse uma facada na alegria portista, e assim é que deve ser. Na guerra não existem empates, apenas vitórias tácticas.

“Ontem eu reparava no sorriso das vacas, estavam satisfeitíssimas olhando para o pasto que começava a ficar verdejante”, perorava Aníbal Cavaco Silva, continuando a abusar dos sufixos superlativos absolutos, e indicando que, de facto, os bovinos não se poderiam encontrar mais satisfeitos do que aquilo que já estavam. Desconhece-se se estava a referir-se aos adeptos do Sporting.
O afamado político teceu ainda algumas considerações sobre a poda das anonas, um fruto neotropical, tal como os jogadores sul-americanos, em amena conversa que manteve com um experimentado agricultor de anonas e abacates da ilha Graciosa. A explicação deste último acerca do facto da poda não ser essencial neste tipo de planta, convenceu o chefe de Estado a não fazer a poda em algumas das anonas das quais é feliz proprietário.

Nota: O chá de anonas é bom para a hipertensão, irritações cutâneas, nevralgias, complicações nervosas, palpitações, insónias, indigestão, disenteria, diarreia, febre, náuseas, espasmos musculares e restantes maleitas que possam atacar o Jorge Fucile.