sábado, 5 de fevereiro de 2011

Ao som das sirenes

Quando o Eyjafjallajökull entrou em erupção há menos de um ano, foi o suficiente para paralisar o espaço aéreo europeu. Mas o facto das cidades do Cairo e de Alexandria entrarem em erupção não parece perturbar a Europa.
A política europeia está preocupada com o problema da dívida soberana dos estados do sul, mesmo que não explique aos seus cidadãos os contornos da guerra entre os dois maiores sistemas monetários ocidentais e o papel de figuras sinistras como o George Soros no meio de tudo isto.
Pelos vistos, o Mahdi está a chegar para redimir os fieis e unir aqueles que antes estavam reunidos sob a mesma bandeira. A guerra civil entre os chefe visigóticos do ocidente está a atingir o seu máximo e a próxima Guadalete parece cada vez mais perto.

Existe a argumentação de que actualmente todos falam e escrevem sobre o Egipto sem compreenderem o país, como se estes comentadores se tivessem tornado em especialistas de política egípcia de um dia para o outro.
De facto, a desobediência civil, os motins e os protestos egípcios não são algo que possa ser compreendido pela mente europeia, especialmente a portuguesa, em que anos de "respeitinho" e conformismo obliteraram completamente tais conceitos da psique lusa. Mesmo na recente cimeira da OTAN, tais práticas eram olhadas com desdém pela generalidade da população, ao mesmo tempo que a cidade de Lisboa era fechada para usufruto de meia dúzia de criminosos importantes.
Outro facto é que, em Portugal, não se canta "bilādī" ("meu país") até à inconsciência, tal como uma ladainha que verte o sentido pátrio no interior da alma desses egípcios. Que não querem e que não aceitam. E tanto que nós portugueses poderíamos aprender com isso, mas nós não queremos.

Ao saber que eu tinha um blogue, pessoa amiga dizia-me ontem, embora por outras palavras, que os blogues e a blogosfera seriam um dos sintomas e catalisadores do declínio da sociedade, apesar de eu próprio não augurar tal armagedão digital. O facto de eu saber hiragana, urdu ou código de máquina nada tem a ver com o facto de estar incluído na geração mais preparada de sempre da história deste país. A geração mais bem preparada será sempre a próxima, na medida em que a informação esteja cada vez mais disponível.
A "geração rasca", epíteto criado por Vicente Jorge Silva, destila as suas angústias nesta mesma blogosfera e é a geração acerca da qual os Deolinda escrevem no "Parva que Sou". Não sou eu que auguro o declínio da sociedade. A insustentabilidade e instabilidade da situação actual entra pelos olhos adentro de qualquer um.

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