sábado, 23 de outubro de 2010

Karma imediato

Esta semana foi surreal. Desconheço a razão porque me estou sempre a cruzar com raparigas que gostam de brincar com o fogo. Se é a inerente estupidez da raça feminina a causa deste tipo de atitude imatura, ou se existe alguma pulsão magnética da minha parte, que me atrai para esse tipo de pessoas, é algo que não consigo explicar.
A juntar a este problema da coronária, que se resolve com uma atitude racional, foi assistir à consequente desumanização de corações e almas devido à informação e à tecnologia, transformando os indivíduos em armas de destruição maciça, através de uma escolha criteriosa de alvos pessoais.
O ego é determinante naquilo que gostamos ou o que não gostamos. A programação individual ajuda o indivíduo a sobreviver, e numa lógica mais complexa, faz com que uma pessoa tenha um determinado peso na sociedade, segundo os amigos que tem ou que deixa de ter.
O entranhar de uma determinada máfia no tecido artístico e cultural do país tornou a premissa principal na necessidade de pertencer a uma capelinha, onde estão os nossos amigos. Aqueles que nos ajudam, independentemente do nosso talento, uma vez que estas personalidades são egocêntricas e deixaram de ter noção da realidade em que vivemos.

O que nos leva à questão do elitismo. Se a massificação de um produto pode ser quase sempre nefasta para a qualidade do mesmo, a selectividade, ou pior do que isso, a falsa selectividade consegue produzir resultados ainda piores. Por elite entende-se um grupo restrito de indivíduos, dominante no interior de uma sociedade e que detém um estatuto privilegiado, motivo de inveja por quem se situa num patamar inferior.
Mesmo que num momento inicial, o ego jure que não vai modificar o seu comportamento ou a sua postura, a venda da alma ao Diabo e o mel sedutor que este oferece conseguem abalar a postura mais estóica. No fundo, todos queremos aquilo que criticamos, e no fim de contas, todos criticamos aquilo que já fizemos. Criticamos quem canta em inglês, apesar de já o termos feito anteriormente. Criticamos as máfias artísticas, mas vamos lá beijar-lhes o rabo e até sorrimos. Criticamos o estado a que o país chegou, mas é tudo conversa de café, e depois dos nossos quinze minutos de indignação, vamos dormir, que amanhã é outro dia.
Criticamos porque não queremos fazer mais nada e só isso nos resta. Quando finalmente formos chamados à elite, essa grande vaca, cujas tetas alimentam uns poucos privilegiados, ficaremos satisfeitos e encontraremos outra coisa qualquer para criticar suavemente.

Uma laranjeira sofria anualmente com as larvas da mosca da fruta. A partir de uma determinada altura, o dono resolveu não regar os ramos da árvore, como era prática comum, nem usar o aparentemente inútil pesticida. A dita árvore começou estão a apresentar um conjunto elaborado de teias de aranha em quase todos os ramos. As aranhas perceberam que naquele local havia algo para se alimentarem e controlaram a população de moscas, restabelecendo o equilíbrio ecológico, o que veio contribuir para uma safra de laranjas sadias.
As melhores soluções são muitas vezes as mais simples, e quem faz jogos desnecessários por vezes dá-se mal.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Cortesia

As cortes medievais estavam associadas ao comportamento educado, mas também à beleza. A palavra corte, que designa a residência de um príncipe, deriva do latim "cortem" (pátio fechado) a partir de "co" (junto) e "hortus" (pátio).
A palavra veio dar origem a cortesia, corte (no sentido de cortejar uma rapariga) e a locais fechados, como aqueles onde se situa os tribunais (inicialmente presididos por um príncipe) ou onde se praticam desportos, como o ténis (court).

Hoje, uma jovem sorriu para mim quando eu lhe agradeci, depois dela parar o carro numa passadeira para eu passar. Quem é que disse que o cavalheirismo já não existe?

domingo, 17 de outubro de 2010

A Serpente do Deserto

Tinha vontade de lhe contar que também estive em Merzouga, embora não tenha andado de camelo, o que equivale mais ou menos a ir a Roma e não ver o Papa, ou que o aspecto mais impressionante de toda aquela paisagem tenha sido o facto de olhar em volta e conseguir ver sempre a linha do horizonte. Das fotografias que tirei voltado para cada um dos pontos cardeais.
Dizia-me uma vez um professor que eu tive, apaixonado por fractais, que os desertos são os locais por excelência de construção de religiões. As maiores religiões monoteístas tiveram a origem nas suas areias, o que não deveria ser de estranhar, pois o nosso mundo apresenta muitas distracções para os sentidos e o ambiente árido e inóspito do deserto torna-se ideal. Ideal para uma pessoa estar sozinha com ela própria e encontrar a resposta dentro de si. Aquela resposta que as pessoas no quotidiano não ouvem, porque estão imersas em ruído e cujo pensamento está a ser constantemente atropelado por solicitações de outros seres, também eles em busca de uma resposta, mesmo que não a tentem ou não a queiram encontrar.

Não nos convém aproximar muito dos tufos de vegetação. A maior parte das coisas que mordem estão aí escondidas. Enquanto isso, observava o trilho de pegadas de um fenec - "C'est un petit renard!", e eu - "Oui, je sais ce qu'est un fenec!". O meu raro sorriso de boa disposição era revelador disso mesmo. Da certeza de que o feneco, como se diz nesta língua, nunca ser motivo de conversa em lado nenhum português e da maior parte das pessoas deste país nem sequer saber que tal animal existe. Assim desconhecendo, torna-se mais fácil odiar o nosso mundo e por extensão nós próprios. Assim desconhecendo, torna-se mais fácil deixar que outras pessoas se alimentem de nós e nos transformem em escravos, porque a imensidão do deserto não faz sentido nenhum para essas pessoas que tentam viver enclausuradas em ambientes claustrofóbicos, como casas diminutas, e que saem para se tentarem divertir em bares diminutos e que provavelmente nem conhecem o vizinho do lado, tornando-se assim mais fácil. Mais fácil odiar.

O fenec só sai à noite. Por razões óbvias, é um animal de hábitos nocturnos como a maior parte das criaturas do deserto e isso desconsolou-me um pouco, pois não iria ter oportunidade de o ver. Já estava entre as areias do deserto desde antes do amanhecer, após ter
ouvido o adhān em Erfoud ainda deitado, e de, em seguida, percorrer num Defender o caminho até à imensidão.
O nascer do sol é uma experiência quase mística e não me ocorre mais nenhum adjectivo para descreve-la. Acredito que qualquer pessoa reavalie determinadas considerações da sua vida depois de ter experimentado o deserto. Na realidade, o imenso é algo que muda a consciência de uma pessoa mesmo que esta não esteja preparada para isso, e geralmente nunca está.
A serpente detentora do
pensamento estava lá comigo. Os cornos da víbora do deserto cortavam Cronos, o tempo, pois o seu serpentear debaixo dos grãos desse oceano de areia era como um deslizar cortante que tocava em todos os seres humanos, grãos desse oceano chamado consciência universal. Ainda hoje guardo os grãos dessa areia.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Seres sem coluna vertebral

Como vem aqui referido, Fernando Seara, o garboso autarca da muy nobre villa de Cintra, afirmou: “Se Gilberto Madail não for candidato, haverá um conjunto de circunstâncias que me poderão levar a reflectir” ou em linguagem matemática:
Madail ≡ [¬ Candidato] => (Circunstâncias ∴ [Reflectir ⊨ Candidatura])
Já tinha visto este tipo de pessoas antes. Estes que não se querem comprometer com nada e que se esquivam que nem vermes por entre os pingos da chuva, para que nada do que afirmem ou deixem de afirmar lhes seja atirado futuramente à cara, por entre essas ténues e delicadas estruturas de poder que dependem de lambe-botas e gente sem coragem que vive da imagem.
Pessoas que gostam de aparecer ao lado de carros de bombeiros, porque o povo gosta de ver tal coisa na televisão e ser constantemente enganado por intrujas deste calibre e dizer que a culpa é de outros.
Dizer que o Madail é titubeante e um invertebrado é quase um elogio, comparado com este miserável que é a vergonha dos sintrenses e a vergonha dos benfiquistas.

Imagem daqui

Adenda: Pelos vistos os presidentes associativos da Federação Portuguesa de Futebol vão todos ver o jogo de Portugal a expensas da mesma.
Talvez a Islândia seja muito longe para pagarem do próprio bolso, e apesar da Utilidade Pública ter sido retirada a esta instituição, os contribuintes portugueses lá encontrarão uma forma indirecta destes marajás se deslocarem aquele país, que isto da austeridade é só para alguns.

sábado, 9 de outubro de 2010

Snake

PJ Harvey, ao vivo no Zenith, Paris (2004)

«You snake you crawled between my legs Said want it all it's yours you bet I'll make you queen of everything No need for God no need for him Just take my hand you'll be my bride Just take that fruit put it inside You snake you dog you fake you liar I've burned my hands I'm in the fire Awooooooh....oooooooohhhh Oh you salty dog you filthy liar My heart it aches I'm in the fire You snake I ate a true belief Your rotten fruit inside of me Oh Adam please you must believe That snake put it in front of me In front of me»
PJ Harvey - "Snake", do álbum "Rid of Me" (1993)

Isto não é uma performance, é uma catarse...